Não tem mais jeito. É uma rua sem saída. Um caminho sem retorno. Nada volta ao que passou. Nem mesmo a palavra dita, como reza o provérbio, e muito menos a infância vivida. A minha filha, Gabriela Martins Trezzi, que nasceu parecendo uma boneca de tão linda e tão pequena, adolesceu. Caro leitor internauta, me perdoe, por favor, se o verbo adolescer não existe, mas acabei de inventá-lo para necessidade extrema de uma mãe em desespero. Ao mesmo tempo, aviso que o tal verbo está sendo plenamente experimentado na minha casa e, para esclarecer, Gabriela cresceu, mas continua linda e isso não é corujice materna.
A transformação de menina em pequena moça não foi assim de um dia para o outro. Não é obra de uma fada madrinha. Uma sexta-feira, por exemplo, ela pede para passar o final de semana na casa da praia de uma amiga. E eu permito. Claro que paguei o mico e liguei para os responsáveis pela amiguinha para saber tudo direitinho (só não pedi CPF dos pais….hehehe). Um dia, ela acorda bem cedo, antes das 7h30min, me sacode na cama e informa que vai para o colégio no turno inverso ao que estuda para realizar um trabalho em grupo (ah, bom). Hoje, uma amiga passou na nossa casa bem cedo para levá-la ao ensaio da banda.
Apesar de vislumbrar, ainda que negando conscientemente, os pequenos avanços rumo à adolescência, deixei um resto de esperança de que ela não crescesse tão rápido me habitar. Nas situações em que conseguia contornar um pouco a realidade, captava no seu olhar azul cristalino pintado de esperança uma brincadeirinha da velha infância. Gabriela demonstrava, às vezes, pequenos gestos de criança nas suas perguntas, desejos e inquietações diárias. E grandes gestos de criança sempre que me abraçava e me envolvia querendo esquecer algum descontentamento.
Com carteirinha renovada de mãe moderna (ou será que meu sindicato é outro?), já estava previamente preparada para a tal da adolescência. Afinal, meu corpo de jurados, formado unicamente pela minha pessoa, havia me concedido nota 8 nos quesitos pré-aborrescente e aborrescente. Não escondo que meu boletim trazia erros básicos e imperdoáveis, como ainda torcer cegamente pela filha nas Olimpíadas do colégio ou bater palmas efusivamente em qualquer apresentação dela. Nada, imaginei eu com minha experiência de tia, que colocasse em risco a sua (nossa?) passagem para a adolescência.
Por isso, mães de todos os lugares do nosso planeta e que estejam me lendo. Não se enganem. Nunca estaremos preparadas. Não adianta ser PhD em todas as pedagogias e psicologias do mundo. Uma coisa é uma coisa. E outra coisa é outra coisa. Essa filosofia simplista é a mais perfeita definição do que passamos ao ver que os filhos não são mais crianças, já caminham com seus próprios pés, planejam festas noturnas com os amigos e, pasmem, fecham a porta do quarto para ouvir música (mesmo eu agüentando escutar os funks que Gabriela gosta) e até se trancam para falar ao telefone.
Todas as mães sabem que os filhos são criados para o mundo e não são suas propriedades. E nem estranhem muito quando eles começam a soltar, de leve, os primeiros nós. Está na enciclopédia das relações humanas algumas dicas, embora nenhum filho traga seu manual de instrução. Como as mães, via de regra, são mais melosas e emotivas, preparem-se para a passagem dos filhos pequenos para a adolescência. Tudo acontece devagar e de repente. Lentamente e violentamente. Com ternura e aspereza. Exatamente como os sentimentos que se passam na cabeça dos nossos adolescentes.
Soltei, definitivamente, as mãos de Gabriela para o mundo da adolescência ao deixá-la de levar e buscar no colégio, como fazia desde que ela tinha quatro meses e precisou ir à creche para eu voltar a trabalhar. Como estou de licença-saúde no Correio do Povo (antes, deixava-a na escola na ida para a redação), atendi seu pedido e despeço-me da pequena notável na porta de casa com um beijo bem estalado. Talvez isso explique por que, ultimamente, permaneço alguns minutos agachada ao lado de sua cama, admirando a cria, enquanto ela já está sonhando com o futuro. E eu recordo do seu passado.

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