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Obrigada Nossa Senhora da Academia

Imagine chegar em casa cansada depois de um dia exaustivo e intenso de trabalho, botando os bofes para fora, chutando o balde e com …

Imagine chegar em casa cansada depois de um dia exaustivo e intenso de trabalho, botando os bofes para fora, chutando o balde e com uma vontade incontrolável de mandar tudo e todos para aquele lugar. Pense que o trajeto de retorno foi feito com um transporte coletivo lotado de passageiros com as caras fechadas e emburradas, com todas as janelas fechadas, sem entrar um ar para renovar o ambiente. Intercale isto a uma chuva fininha que insistia em cair e molhar esta vivente, que não portava a sua sombrinha, e não conseguiu abrigo em todas as marquises do caminho. Em casa, encontrei o quarto para arrumar, a louça para lavar, a janta para planejar e um cachorro shih tzu de nome Dalai a exigir atenção e muita paciência. Que no final de tudo, eu precisaria organizar o dia seguinte, fazer o sorteio das contas a pagar, pensar na refeição a ser levada para o almoço, separar as requisições de exames a serem feitos no inicio da quarta-feira. E tudo antes das 23h a fim de dormir cedo para não brigar com o despertador que maltrata impunemente meus ouvidos às 6h30min.

Ao misturar todos os ingredientes acima, protagonistas das minhas encrencas, era de se esperar que a minha casa tivesse se tornado uma filial do inferno e eu a parenta mais próxima do Diabo. Apesar de tudo, os problemas, as preocupações, as mazelas se dissiparam ao colocar os pés na sala do Pilates, localizada no térreo do meu prédio, que é magicamente administrada pela professora Eti. Tudo some ao visualizar no espaço de 29 metros quadrados os aparelhos que deixam o meu corpo saudável, a minha mente disposta e me tiram a ferrugem da rotina. Tudo desaparece ao iniciar os exercícios de alongamento, de correção postural, de respiração. Na duração de 60 minutos (tempo da aula), sempre coordenada pela Eti, que volta e meia me puxa com a voz mais elevada para a posição correta de braços, pernas e abdominais, o que poderia me preocupar não só fica do lado de fora como depois não encontra um corpo e uma mente para habitar.

A aula de Pilates que tem a frequência de duas vezes na semana (eu até gostaria de fazer um dia a mais, mas o orçamento atual não admite) é capaz de renovar a energia, purificar a alma, equilibrar e tonificar o corpo, acalmar a mente. Enfim, deixar o conjunto da pessoa mais saudável. Mesmo após uma jornada de trabalho puxada, de um dia inteiro de muita disciplina, de uma concentração absurda, os exercícios de Pilates não podem ser dispensados. Ao cumprir as tarefas determinadas pela professora no reformer, na cadeira, no cadilac, na bola, e em outros aparelhos, é como se espantasse qualquer ruga de preocupação, qualquer dúvida, qualquer medo, qualquer temor. A prática de Pilates é o caminho para o reencontro com a paz, com a tranquilidade, com a harmonia, com a renovação.

Se alguém não adepto dos exercícios – assim como eu sempre fui – receber uma orientação médica para realizar atividades físicas, deve sem pestanejar matricular-se em aulas de Pilates. Já que estou aconselhando, arrisco sugerir que prefira um local próximo da residência do aluno, porque depois de uma rotina puxada de um dia de trabalho, todos os caminhos e os atalhos indicam o rumo da casa do trabalhador. Desta forma, fica mais difícil faltar às aulas. E o aluno (a) não precisa nem se preocupar em levar roupa adequada em mochilas para o trabalho. É só passar em casa uns 10 minutos antes do horário inicial da aula, despir-se das roupas usadas durante o dia, vestir algo confortável e apropriado ao esporte e ir para a sessão de Pilates.

Durante uns seis meses, fiquei arrumando as melhores e as piores desculpas para não começar a aula de Pilates. A falta de tempo, o salário apertado, o horário das aulas que não se encaixava com a minha necessidade, o telefone do estúdio de Pilates que nunca era atendido para me passar as informações e blá, blá, blá. Até que uma insistente dor nas costas, sem motivo aparente nos exames solicitados, começou a me obrigar a rever as desculpas. E depois de uma novena devotada feita para Nossa Senhora da Academia, descobri o que faltava para me deixar de novo com vontade de movimentos, de pulos, de levantamento de braços e pernas, de alongamento, de abdominais. Ainda falta muito, mas muito tempo mesmo, para ser uma boa aluna no Pilates. Mas já me orgulho de minhas conquistas.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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