Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas!
Bilac
Há poucos anos, conversando com Paulo José, o artista, ele me disse que encontra na poesia respostas transcendentais quanto à vida.
Também tenho encontrado em Carlos Drummond de Andrade tantas respostas, acumulei com ele uma imensa dívida através dos tempos.
No poema Campo de Flores, do livro Claro Enigma, ele me decifrou uma grande artimanha do destino e me ordenou que amasse e calasse. Drummond explicou-me grandes mistérios, deu-me respostas inusitadas, mas verdadeiras. Comento agora apenas alguns de seus versos em Campo de Flores que, completos, estão na Internet.
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
— Aconteceu comigo aos 46 anos de idade
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
— Como desdenhar essa dádiva, inda que inesperada?
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
— Verdade absoluta.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
— E o amor ressuscita manhãs não vividas.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
— Amores muitos reproduziram-se num só amor e justificaram o tempo da gestação.
— Eis que o enigma se torna claro em alguns dos mais belos versos do idioma:
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
— O improvável acontece e se autoexplica.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
— Amém.
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores)
Meu querido e saudoso Mario de Almeida, peço a você mil desculpas por não estar mais presente nas suas crônicas. Queria responder a todas, comentar, traçar reflexões. Mas o tempo e a falta de brilho – que fica empanado frente ao seu texto e histórias – me impedem. Quero que você saiba o quanto aprecio, gosto, adoro, ler você, sabê-lo ativo, esperto, interessante, articulado, antenado, vindo lá de trás com histórias que lamentavelmente a maioria de hoje perde e nunca vai saber o sabor que tem. Estes registros merecem ser editados. De vez em quando pego o seu Antonio’s e dou uma passeada por ele. Que delícia. Enfim, fique com o meu abraço e com este registro das minhas saudades. Isnard (Manso Vieira), publicitário, Rio
Mario,
Em uma próxima ida a Floripa, não podes deixar de visitar o Arante. O restaurante é realmente diferenciado, em sua singeleza e originalidade – sem contar que está encravado na areia, juntinho do mar. O dono ainda anda por lá, geralmente bebum, e é uma personagem super folclórica.
E o Treviso continua lá no Mercado, firme e forte, dominando a cena.
Abração, Vieira (José Antonio Vieira da Cunha), jornalista, diretor de Coletiva.net, Porto Alegre
Querida colega registrou no pé da coluna:
Histórias e histórias que sempre valem – “Mario, querido, mais uma vez a tua coluna é uma história para mim sobre lugares lindos, boêmios e acontecimentos da MPB. Adoro ler quando escreves estas lembranças. Quando for a Santa Catarina, não deixe de visitar o Bar do Arante, uma comida muito boa, quantidade mais que suficiente, preço bom e a decoração como o professor Carlos Eduardo Cunha relatou. Bjs” Marcia Fernanda Peçanha Martins – Jornalista e poeta, Porto Alegre

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