Na minha infância, eu ficava intrigado com as ciganas de véus e colares dourados, que vinham da Várzea para ler “la buena dicha”. Alguns de nossos vizinhos nem atendiam a porta, com medo de mau olhado. Eu também não gostava delas, mesmo quando a mãe dizia que elas eram capazes de ver o invisível, enquanto nós apenas enxergamos as coisas visíveis.
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O pequeno apartamento de fundos estava escuro, abafado e tinha as janelas fechadas. Uma multidão de gatos enchia a sala – eram gatos por toda a parte, dormindo em almofadas, no sofá e amontoados debaixo da mesa. Pensei:
“- O que vim fazer aqui?”
Estava desconfiado, mas decidido a descobrir porque diziam que esta vidente sabia como prever o futuro. Entrei na salinha, por detrás de cortinas, onde a dona dos gatos me aguardava. Ela usava um véu negro que escondia parte do rosto, mas mostrava seus grandes olhos verdes, que me observavam com curiosidade.
Embaralhou as cartas de Tarot e as arranjou sobre a mesa. Tomou minhas mãos e as examinou por um longo tempo. Então, começou a murmurar em voz quase inaudível. Foi preciso me curvar para ouvir – ela citava nomes de pessoas e lugares. Sem ordem lógica, surgiam amigos e gente que eu não conhecia. Lugares familiares apareciam misturados com cidades onde eu nunca estivera. E, ainda, detalhes da adolescência que nem eu me lembrava mais.
Ela continuava falando, agora sobre fatos que estavam por acontecer. Parecia que passado e futuro estavam à minha frente, lado a lado, com as cartas de Tarot.
Subitamente, sem aviso, a vidente silenciou, como se acordasse de um sono profundo. Ergueu-se e desapareceu por detrás das cortinas. Em algum lugar, uma porta bateu.
Mais tarde, tentei anotar os nomes, lugares e datas. Rabisquei o que pude e guardei o papel em algum lugar.
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Nas primeiras vezes que aconteceu aquela sensação de déjà vu, não dei importância, devia estar sonhando de olhos abertos. Mas a sensação voltava e cada vez mais nítida.
Era assim – experimentava uma repentina consciência de que a situação (ou a conversa) que estava por acontecer – já havia acontecido antes. Me deixou preocupado – era real ou fantasia?
Foi quando recordei de um livrinho que lera e relera muitos anos antes. Seu título era “David Cooperfield” e havia um personagem que revivia situações pelas quais já havia passado. Ele pressentia os encontros com pessoas e visitas à cidades, replicando o que acontecera em seu passado. E, quando isso acontecia, o personagem era capaz de antecipar o que a outra pessoa iria dizer nos minutos seguintes.
Exatamente o que estava se passando comigo.
Imaginei ser um déjà vu, ou algo mais estranho ainda, aquilo que os psicólogos chamam de déjà vécu, quando a memória brinca de embaralhar presente e passado.
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Dias depois, arrumando papéis, encontrei alguns livros desde muito esquecidos. Um deles era justamente o “David Cooperfield”, que imaginava perdido. De entre suas páginas, caiu um pedaço de papel, escrito com a caligrafia que eu não usava há muito tempo.
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Usando de muita calma, tentei identificar os nomes e lugares que eu rabiscara. Demorou para entender que não eram anotações de um tempo já acontecido. As pessoas ali mencionadas, eu encontrara há pouco tempo. O papel mencionava duas cidades: Edinburgo e Dublin, onde eu nunca estivera. E o mais incrível – eu estava com viagem marcada para lá.
Eu estava lendo um registro feito no passado de um futuro que, aos poucos se tornava presente.
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