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Os bondes saféti

Pois os finados bondes elétricos de Porto Alegre estariam completando 100 anos em 2008, se a reconhecida inteligência cabocla não tivesse acabado com eles …

Pois os finados bondes elétricos de Porto Alegre estariam completando 100 anos em 2008, se a reconhecida inteligência cabocla não tivesse acabado com eles em todo o Brasil, para desatravancar as ruas. Depois, em outro lampejo, a mesma e nunca desmentida inteligência cabocla construiu os corredores de ônibus, porque não eram propriamente os velhos bondes que atravancavam as ruas. Mas já é outra história, como diria Kipling, como de outra história são também os navios e o trem substituídos pelos caminhões.

Falávamos de bondes e é curiosa a origem desta palavra, só usada no Brasil, sem nada a ver com transportes. No resto do mundo é chamada de elétrico (Portugal), tramway (países de língua inglesa), e mais não conto porque não sei alemão, dinamarquês e sei lá mais como é em idiomas de outros países tão burros que não só preservaram seus bondes como até os modernizaram.  Em Frankfurt, por exemplo, deslizam sem fazer o menor ruído, graças à lisura dos  trilhos e a um sujeito com uma almotolia que os vai limpando e lubrificando a todo o momento. 

Mas falava da origem da palavra bonde e não há acordo a respeito. A que acho a mais provável e ouvi de gente antiga, que ainda conviveu com os bondes de burro, é a mesma defendida pelo Luis Fernando Verissimo: os primeiros bondes eram explorados pela Bond and Share Co., e tinham o nome da companhia pintado nas laterais, como hoje as empresas de transportes marcam seus ônibus.

Algo semelhante ocorreu com os próprios bondes, na cidade do Rio Grande, que só ganharam modernização – pouca, é verdade – quando a Prefeitura comprou alguns exemplares descartados por anciãos, de uma cidade norte-americana, mas cujas portas se abriam ou fechavam automaticamente, quando os freios a ar comprimido eram acionados.

Esse bondes, batizados de “saféti”, sem ninguém saber por quê,  foram inaugurados solenemente em um domingo, com discursos patrióticos e ufanistas. Era tempo de Estado Novo.

A população fez filas imensas para andar no “saféti”, cuja glória não durou mais além daquela semana. Logo acabou incorporado à mesmice dos coleguinhas mais antigos, que gingavam nos trilhos de bitola estreita.

Na minha cabeça é que ficou o enigma: por que “saféti”?

Muito tempo depois é que dei conta: tratava-se de “safety”, segurança, em inglês, pintado em cima das portas, para alertar os passageiros que eram “freios de segurança”.

Autor

Jayme copstein

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