Carlos levantou-se, deu uma porrada no Cachorrão e saiu sem olhar para trás.
Em casa, Luana, no computador, levantou os olhos:
– Já?!
– Dei uma porrada no Cachorrão.
– Mas Carlos, no Diretor?
– Isso, no Odair. Faria o mesmo em qualquer um…
– E…
– Ele deu um bofetão no Januário.
– No contínuo?! Por quê?
– Nem quis saber. Levantei e dei logo um soco no nariz dele…
– E daí?
– Sei lá, dei o soco e saí.
– Foi despedido?
– Não deu tempo… mas já devo ter sido.
– E agora?
– Amanhã começo a procurar emprego.
Luna deu um beijo no marido e voltou-se para suas traduções. Estava quase na hora de pegar o Bruno no colégio.
Carlos ligou o rádio numa emissora de notícias, mas a cabeça viajou.
Na faculdade, cursando História, entrara num jornal como estagiário. Quando formado, não pensara lecionar, já era jornalista.
Seus 32 anos sabiam, há muito, que a História nunca fora pródiga em vinganças.
Lembrou-se de ditadores, de assassinos em massa que morreram em desastres ou na cama.
Hitler, ao suicidar-se, foi exceção. Lembrou do Brasil, dos militares e seus beleguins…
Lúgubres pensamentos foram interrompidos pela alegria. Bruno chegou correndo e abraçou o pai com força.
Não estava na hora de contar para o menino o motivo de ter que procurar emprego. Havia a certeza de que Bruno, apenas pela convívio, praticaria Confúcio: “As relações humanas devem ser baseadas na reciprocidade”.
O telefone tocou e era Amâncio, colega e amigo do jornal:
– Carlos, todo mundo deu razão pra você, o chato é que o Cachorrão, além de mais velho, é muito mais fraco que você.
– E a covardia do Cachorrão? Patrão pode dar bofetada?
Desligado o telefone, Carlos ficou pensando em como a história foi avarenta em punir os que transformaram poder em crimes. De repente, gratificou-se.
Gostaria de estar naquela multidão que festejava o cadáver de Mussolini dependurado de cabeça para baixo, depois de fuzilado quando fugia. Aquele cadáver trucidado pelo povo em Milão foi um momento ético da História. Justiça igual à da Revolução francesa.
Esfregando seu punho direito, sabia que a porrada no Cachorrão fora apenas um ato pessoal.
Na História, quem dá a porrada é o patrão. Mas, às vezes, recebe o troco.
Dia seguinte, ao sair, Luana perguntou se levava cópias do currículo:
– Não.
– Devia.
E brincou:
– Não se esqueça de incluir boxeur.
– É que não sei se inda sou “meio-pesado”. E riu.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre crônica anterior)
Mario de Almeida: Como divagações absolutamente inúteis? Não entendo assim tua coluna do dia 16.
Lembrar dos amigos, da construção de uma vida repleta de alegrias e realizações e expor tudo com memória de ponta não é inutilidade, é sabedoria que se passa e se absorve como mata-borrão.
O Paulo César merecia o Prêmio Oscarito por tudo que fez. Esse gaúcho “mal-humorado”, ou melhor, direto em suas encrencas, é uma grande figura que viveu para o teatro, cinema e TV, onde fez seu mundo. Grande abraço. Eloí Flores, diretor do campus Ulbra/Guaíba, RS.
Coisa interessante: anteontem, pensando em coisas do passado, eu tinha tido uma ideia semelhante à tua, aquela que finaliza a coluna e faz a pergunta sobre a ideia do que seria se não fôssemos o que somos. O caso é que não cheguei a te dizer como a pergunta calhou com o texto, como finalizou bem! Vera Veríssimo, psicóloga, Porto Alegre.

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