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Os degraus do sonho

Os ponteiros do relógio indicavam que já passava da meia-noite, um silêncio sepulcral dominava os quartos destinados aos sonos de minha mãe e minha …

Os ponteiros do relógio indicavam que já passava da meia-noite, um silêncio sepulcral dominava os quartos destinados aos sonos de minha mãe e minha filha, Gabriela Martins Trezzi. A ocasião perfeita para vestir-me de lembranças pueris e aceitar o desafio feito por Gabriela, à tarde, enquanto a sessão de cinema não começava, de esconder os seus ovinhos de Páscoa. Coincidência ou não, antes do filme escolhido aparecer na tela grande, a chamada do trailer dizia literalmente: “Não temos tempo nem para nos emocionar”. E minutos antes, a minha adolescente mostrou, com seu pedido, que ainda precisa de instantes de pureza e magia.

A idéia de minha filha para esconder os ovos, a casa imersa na ausência de ruídos e a falta de tempo para as emoções  (e que vida triste quem sobrevive sem elas) deram o respaldo necessário para que eu soltasse meus anjos e demônios infantis. Lembrei de uma Páscoa, quando Gabriela deveria ter cerca de seis anos, e desenhei com talco, pegadas de coelho no tapete da casa, fazendo o trajeto do seu quarto, sala, cozinha e área de serviço, destino final do coelho branco e peludo, tão engraçadinho, que pulou para outra jornada após esconder pelos cantos do apartamento o ninho da minha filha, naquele tempo, tão pequeninha.

Não poderia repetir a técnica do talco para as pegadas do coelho. Mas simplesmente esconder os ovinhos de chocolates não iria me emocionar e muito menos a minha filha, que parecia pedir mais fantasia. É uma etapa complicada esta tal de adolescência. De vez em quando, navega em ondas mais calmas, sujeitas a coisas de criança. Em outras, é um corpo feminino que chama a atenção masculina na rua ao caminhar adolescentemente com seus contornos definidos (ai, meus calmantes, please). Dane-se o adiantado da hora. Por não saber quando a criança em Gabriela despertaria novamente, decidi incrementar o cenário.

Espalhei pelo seu quarto, que  cheira a meninice, vários coelhos de pelúcia de diferentes tamanhos, fazendo um cerco sobre sua cama. Com a ilusão de que estava disfarçando a minha letra, escrevi um bilhete do senhor coelho avisando que os ovinhos estavam bem escondidos, “pelo menos desta vez”, tentando mostrar que o personagem era o mesmo de páscoas passadas. Desenhei em uma folha branca, umas seis pegadas de coelho, recortei-as e colei no chão de seu quarto, indicando que o bicho esteve por ali fazendo algumas estrepolias durante a noite e brincando de esconde-esconde.

Na manhã de domingo, acordei assustada com os gritos de Gabriela. “Mãe, o coelho não fez pegadas pela casa toda, mas deixou bilhete”, disse, soltando gostosas gargalhadas enquanto começava sua peregrinação pelo apartamento à procura de seus presentes. Confesso que me esmerei e escondi nos mais inusitados espaços da casa os três ovos de chocolate endereçados à menina. Como a adolescente pediu um instante de pureza com a brincadeira, utilizei de todos os artifícios e artimanhas para tornar a sua primeira Páscoa criança/adolescente um rito inesquecível.

Depois de uma longa investigação matinal, recheada pelas minhas dicas orientando onde estava “quente” e “frio” (todos devem lembrar desses termos usados nas brincadeiras de esconde-esconde, que todo mundo já foi criança né?), Gabriela, finalmente (ufa), encontrou o terceiro ovo, que era justamente o maior e que lhe despertara a gula. No resto do domingo, na companhia de alguns membros da família, fiquei saboreando a felicidade escrachada de minha filha, enquanto esta lambuzava os seus sonhos já adolescentes com pedaços de chocolate.

No livro Baú de Espantos, no poema intitulado “Os degraus”, Mario Quintana já sentenciava: “Não desças os degraus do sonho. Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde os deuses, por trás das suas máscaras, ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…”. O maior risco, talvez o poeta soubesse, é não conseguir mais colocar inocência e ingenuidade no nosso mundo.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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