
“Ninguém consegue se banhar
duas vezes no mesmo rio”.
Heráclito.
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A memória é um tema recorrente na obra do poeta Jose Luis Borges. Surge exatamente um ano após ele escrever um texto antológico sobre James Joyce. Onde menciona sua exaustiva leitura das quatrocentas mil palavras de Ulysses, afirmando que Joyce exige que o leitor seja um monstro semelhante a ele. Como réplica (ou como vingança?) Borges publica a seguir um conto de dez páginas, que intitula Funes, o Memorioso. É o início de sua obsessão com a memória, que ganharia sequência em O Outro, uma espécie de jogo, onde ele inventa seu encontro consigo mesmo de quando ele era jovem. E apresenta a parábola do rio por onde flui nossa memória:
“A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. De uma forma inevitável, um rio que nos obriga a refletir no tempo que passou”.
No rio e no tempo borgianos, os grandes pedaços de gelo são fragmentos de memória ,levados pelas águas cinzentas de volta ao passado e para nossa reflexão.Borges lembra o pensador gregoque assim definiu a passagem do tempo:
“Ninguém consegue se banhar duas vezes no mesmo rio”.
A memória, como o rio de Heráclito, corre mais rapidamente do que somos capazes de perceber. Nós a deixamos escapar entre os dedos quando ainda estamos na adolescência, mas a preservamos com avareza à medida em que ficamos velhos.
Borges retoma o tema em outro conto memorável, A Memória de Shakespeare. Descreve o caso de Hermann Soergel, um professor que dedicou a vida a estudar a vida de Shakespeare. Mas à certa altura, Soergel começa a sofrer com o peso das lembranças de seu personagem, o que ele fez e o que ele foi:
“Com o passar dos anos, cada homem é obrigado a carregar o peso crescente de sua memória. Duas memórias me oprimem e se confundem, pois eu e o outro somos incomunicáveis”.
Podemos ler aqui o conflito entre dois diferentes Borges, o do passado e o do presente. E quando o jovem Borges apresenta ao velho Borges questões sobre sua vida e leituras, surge o esquecimento, o irmão gêmeo da memória.
Assim, os dois Borges representam uma íntima relação entre o esquecimento e a memória, que são as duas faces do passado. Como o leitor pode constatar no conto Eu sou, onde o esquecimento retorna agora vestido com o manto da vingança:
“Eu sou, aquele que sabe que não há melhor vingança do que o esquecimento”.
Em Jorge Luis Borges, o esquecimento como vingança navega conosco no rio do tempo, carregando para longe as lembranças que assombram, mas lembra que a memória é uma geradora de nossa identidade como indivíduo.
Mas não deixa de advertir que lembranças incontroláveis e reincidentes podem nos fazer prisioneiros. Como diz Soergel, ao sofrer como peso de duas memórias:
“- Esqueci a data em que decidi me libertar”.
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