Em uma dessas noites, em um futuro ainda longínquo, os cães estarão todos sentados. Estarão reunidos em seus círculos familiares. As chamas das fogueiras – pois novamente será um rigoroso inverno – estarão altas. O vento do Sul soprará forte. Em silêncio, os cães ouvirão de novo todas aquelas velhas lendas.
E os jovens cachorrinhos vão, como sempre, perguntar aos anciãos: “O que é homem? O que é uma cidade? O que afinal vem a ser uma guerra?”
Este é um dos futuros possíveis, a se confirmarem previsões apocalípticas de um inverno nuclear. Na obra do escritor e jornalista Alberto Moravia, “L”Inverno Nucleare”, ele lança um angustiado apelo pela paz e contra as armas nucleares. Dos anos 80 do século passado para cá, vários outros países alcançaram a tecnologia necessária à fabricação dessas bombas. Se detonadas apenas algumas delas, a Terra ingressará em um cenário de congelamento, com a extinção da maioria das espécies vivas nos dias de hoje.
Outro futuro possível:
Era um Império colossal. Estendia-se por milhões de mundos habitados, de um extremo a outro da espiral dupla que forma a Via Láctea. Mas o Império entra em decadência. E outras regiões caem nas mãos dos reinos independentes. A Fundação sente-se ameaçada. Era o único planeta que ainda possuía a energia atômica. Seus vizinhos, lentamente, regrediam para a atrasada idade do carvão e do petróleo.
Alguns leitores, mais familiarizados com a literatura de ficção científica, já podem ter reconhecido. O primeiro futuro possível – quando os cães terão herdado a Terra, e os homens não passarão de lenda perdida no tempo – é descrito por Clifford D. Simak em “City” (As Cidades Mortas, edição portuguesa, Coleção Argonauta).
Já o choque entre a Fundação e seus vizinhos com tecnologia primitiva é narrado nos vários volumes da obra de Isaac Asimov. Os romances de Simak e Asimov são considerados pela crítica como os mais importantes deste gênero um pouco esnobado pelos adeptos da ficção mais “pura”.
Mas, de fato, desde as origens da literatura, surge uma corrente de fábula, alegoria e a descrição de Estados utópicos, tanto terrestres como extraterrestres. Objetivo : satirizar e retratar as paixões dos homens e os vários defeitos de suas sociedades.
“A Utopia”, de Thomas Morus; “A Cidade do Sol”, de Campanella; “As Viagens de Gulliver, de Swift; “Microomegas”, de Voltaire. Estas são algumas obras clássicas do gênero de antecipação, a serem seguidas pelo sinistro “1984”, de George Orwell, ou “Admirável Mundo Novo”, de Huxley.
Os escritores de FC buscam despertar a sensibilidade adormecida dos leitores para os destrutivos fermentos de nossa cultura e civilização deste começo do século 21. Agora mesmo, neste exato instante, que raízes estamos plantando para um futuro melhor para nossos filhos e nossos netos?
O equilíbrio da Natureza foi rompido há muito tempo. Recursos naturais não-renováveis estão se esgotando rapidamente. O consumismo é a filosofia de vida ocidental, com o desperdício como meta principal. É preciso mudar. E rapidamente.
Quando os autores de FC pintam o nosso futuro, com cores sombrias, estão apenas alertando: a hora de modificações pela raiz já chegou. Muitos cientistas da área de climatologia acreditam, até, que já passou este momento de mudança. Os desastres provocados pelo aquecimento global, com mais calor o tempo todo e com a intensidade intensificada de furacões e tufões, provam este ponto. Mas outros cientistas discordam. O debate prossegue.
Em uma sociedade caracterizada por gigantescas empresas, agora, na área da FC, após o desaparecimento de mestres como Simak e Asimov, os novos autores buscam uma mescla entre os conhecimentos científicos atuais e a imaginação a serviço do humanismo. A FC reivindica: a imaginação deve tomar o poder. E desbancar a tendência dominante hoje: a tecnoarrogância das potências dominantes.
O homem consumidor (homo consumens), na definição do filósofo Erich Fromm, em seus ensaios sobre a alienação, “é o homem cujo objetivo fundamental não é, principalmente, possuir coisas. Mas sim consumir cada vez mais, compensando assim o seu vazio, passividade, solidão e ansiedades interiores. E uma sociedade caracterizada por gigantes empresas, e por um excesso de burocracias industriais, governamentais e sindicais, o
indivíduo – que não tem controle sobre as circunstâncias de seu trabalho – sente-se impotente, sozinho, aborrecido, angustiado. Ao mesmo tempo, a necessidade de lucro das grandes indústrias de consumo recorre à publicidade. E o transforma em um homem voraz, um lactante perpétuo, que deseja consumir mais e mais. E para quem tudo se converte em artigo de consumo: cigarro, bebida, sexo, o cinema, a televisão, as viagens. E inclusive a educação, os livros e as conferências. Criam-se novas necessidades artificiais e se manipulam os gostos do homem. A avidez de consumir está se convertendo na força psíquica predominante da sociedade industrial contemporânea”.
Para concluir: na nova FC, alguns autores colocam a oposição do tipo nós versus os outros. A destruição do outro, o mais fraco, é executada sistematicamente pela cultura imperial. Na obra “Genocídio”, de Thomas Disch , os humanos são os índios, os mais fracos, do futuro. Então, Disch narra com sarcasmo como a raça humana será exterminada, com base em fortes inseticidas, por extraterrestres que buscam fazer da Terra um vasto campo agrícola. Para esses agricultores vindos de outras partes da Galáxia, o conceito de “humanidade” nada representa. E seremos todos dizimados como se fôssemos alguma praga em uma plantação. Querem visão mais irônica de nosso futuro?

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