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Os ideais de Chateaubriand

      Ricardo Noblat tem argumentos e competência suficientes para se defender sozinho da perseguição empreendida pelo governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, mas nunca é …

      Ricardo Noblat tem argumentos e competência suficientes para se defender sozinho da perseguição empreendida pelo governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, mas nunca é demais reforçar. O ato mais recente é um pedido de expulsão de Noblat do condomínio dos Diários Associados, feito por quatro condôminos, sob a alegação de que o ex-diretor de redação do Correio Braziliense não comunga dos “ideais de Assis Chateaubriand”. Roriz, oficialmente, nada tem a ver com isso, mas é bastante cômodo para ele que o inimigo seja punido por seus pares.

      Sejamos didáticos: o legendário Assis Chateaubriand, criador do império dos Diários e Emissoras Associados, criou um condomínio de acionistas destinado a levar em frente o projeto depois de sua morte. Quando um integrante morre, outro é esco-lhido. Em 1999, Noblat, hoje com 53 anos, foi eleito o sócio caçula do clube. Agora é ameaçado de expulsão por ter supostamente partidarizado o jornal e não seguir os rumos propostos pelo fundador. Aliás, em se tratando de Chateaubriand, a comparação nem sempre é benéfica. Assemelhar-se ao Chatô que revolucionou a imprensa nacional e legou ao Brasil a maravilha do Museu de Arte de São Paulo (Masp) talvez seja envaidecedor. Certamente não o é exibir qualquer identificação com o dono de uma folha corrida extensa que incluía chantagens, agressões e estelionato.

      Voltemos aos fatos. Durante os nove anos em que esteve à frente do Correio, Noblat transformou um jornal chato, feio e oficialista em um diário moderno, grafica-mente ousado e politicamente combativo. Ao longo deste tempo todo jamais ocorreu aos vetustos condôminos questionar-lhe a maneira de conduzir a redação. O petista Cristovam Buarque também não teve tratamento de compadre enquanto esteve no governo do DF. Roriz considerou-se atingido por receber grande carga de noticiário negativo em época eleitoral. Noblat estaria beneficiando o petista Geraldo Magela. Noblat não inventou os fatos, mas Roriz é de uma escola de políticos que adota a truculência, a intimidação como forma de calar os detratores.

      Invariavelmente, dizem-se vítimas de uma imprensa comprometida, às vezes até acreditam nisso. Por conta do tom combativo do Correio, o jornalista e sua família sofreram ameaças, obviamente anônimas, como reza a cartilha dos covardes, e acabou por ver o jornal invadido por censores dispostos a impedir a publicação de notícias com acusações a Roriz. Demitiu-se. Com ele saiu Paulo Cabral, que presidia a empresa.

      Vencedor de uma eleição apertadíssima, Roriz ainda pode perder cargo. Noblat, atualmente dirigindo A Tarde, de Salvador, já criou inimigos por lá ao publicar a denúncia dos grampos telefônicos. Dono de uma voz serena emoldurada pelo sotaque pernambucano, os cabelos brancos a contrapor-se com a pele morena, Noblat exibe o semblante dos que sabem que cumpriram com seu dever. Jornalista de primeiríssima linha, nem de longe pode ser qualificado como militante do PT. Tal acusação soa como anedota de fim de noite no Piantella, berço das melhores e piores intrigas brasilenses.

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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