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Os lilases de abril

Lilás – s.m. Arbusto originário do Oriente Médio, com flores arroxeadas ou brancas, apreciadas por seu delicado perfume. Segundo crenças antigas, sua floração coincide …

sem títuloLilás – s.m. Arbusto originário do Oriente Médio,

com flores arroxeadas ou brancas,

apreciadas por seu delicado perfume.

Segundo crenças antigas, sua floração

coincide com infortúnios.

***

Assim começa o primeiro capítulo de The Waste Land, o grande poema clássico de T.S. Eliot:

Abril é o mais cruel dos meses…

criando lilases na terra morta,

misturando memória e desejo…” 

Sua publicação, em 1922, provocou uma enxurrada de críticas, ao espelhar o clima de aturdimento da Europa no após-guerra e às vésperas do modernismo. O título A Terra Devastada foi sugestão do amigo, o sombrio Ezra Pound. Talvez por isso mesmo, em seus primeiros versos, Eliot elabora uma referência ao grande poeta Walt Whitman, que mencionava os lilases de abril, mês quando Abraham Lincoln foi assassinado.

Mas enquanto os versos de Whitman celebram o rito da morte, The Waste Land evoca imagens de morte, mas também de esperança, levando estudiosos a sugerir que estamos diante de uma elegia ao renascimento, por suas alusões à salvação através da busca do Santo Graal.

Os dois poemas foram escritos em períodos de grande aflição, sob o impacto de mortandades da Guerra Civil e da I Guerra Mundial.  E tanto Whitman como Eliot não deixam de notar que muitos dos atos funestos que geraram guerras e destruições aconteceram no tempo dos lilases, no mais cruel dos meses.

A Guerra Civil começou em abril de 1861 e terminou em 1865, com a rendição de Robert E. Lee, também em abril. O mesmo mês e ano do assassinato de Abraham Lincoln. E 80 anos depois, em 1945, outro presidente norte-americano encontraria a morte – Franklin Delano Roosevelt, poucos dias antes do fim da II Guerra, quando os lilases floresciam nos jardins da Casa Branca.

***

Em A Marcha da Insensatez – de Troia ao Vietnam, a historiadora Barbara Tuchman examinou acontecimentos que alteraram o curso da História. E concluiu que, muitas vezes, políticos e militares repetiram os mesmos colossais equívocos que causaram guerras, a morte ou a infelicidade de milhares – ou milhões – de pessoas. A autora apresenta explicações para a adoção repetitiva, por governantes, de políticas que se revelam contrárias aos seus próprios interesses. E o mais intrigante: muitos destes eventos tiveram lugar no mês de abril. Por exemplo:

– Nos idos de abril, os habitantes de Troia carregam para dentro dos muros da cidade um certo cavalo de madeira.

– Os papas da Renascença não reconhecem a importância das vozes reformistas e não impedem a cisão protestante, que irrompe a partir do final de abril de 1517.

– Entre abril e maio de 1773, os arrogantes lordes ingleses ignoram os sinais da insatisfação que chegam das colônias e começa o movimento que levará à libertação da América do Norte.

– Em Berlim, no bunker da Chanchelaria, Adolf Hitler e Eva Braun cometem suicidio, encerrando o sonho do Reich de Mil Anos. Era o dia 30 de abril de 1945.

– No dia 29 de abril de 1975, os norte-americanos evacuam Saigon e a guerra do Vietnam chega ao fim.

***

No entanto, nem sempre abril foi um tempo de tragédia e morte. Na história da América também aconteceram mensagens de esperança e de coragem, como a cavalgada de Paul Revere, na noite de 18 de abril de 1875, eternizada por Henry Wadsworth Longfellow:

“Assim, durante a noite cavalgou Paul Revere;

E durante a noite chegou o seu grito de alarme,

Em cada aldeia e fazenda de nosso condado,

Um grito de rebeldia e não de medo,

Uma voz na escuridão, uma batida na porta,

E uma palavra que ecoará para sempre.

Pois, transportados no vento noturno do passado,

através de toda nossa história, até o último,

Na hora da escuridão, do perigo e necessidade,

as pessoas vão acordar e ouvir

as apressadas batidas de casco de um corcel,

E a mensagem de meia-noite de Paul Revere.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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