Os primeiros ventos do outono chegaram com força, desfolhando os plátanos e castanheiros ao longo do Canal de Saint Martin. Um sedan Mercedes, de modelo antigo, estacionou no calçamento de pedras e um homem alto, de aparência mediterrânea, desceu, caminhando com pressa. Usava sobretudo cinza e um cachecol ao redor do pescoço. Olhou sorrateiro para os lados, antes de entrar pela porta alta da mansarda próxima à Rue des Récollets. Ele carregava uma pesada pasta de couro preto.
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O canal estava quase deserto – um casal de mãos dadas cruzava a ponte e um clochard tentava pescar seu almoço. Também não havia movimento no convés da barcaça, apenas um filete de fumaça da chaminé e o cheiro de toucinho frito. Do outro lado do canal, o inspetor Janvrier se ocultava atrás do tronco de um plátano. Vestia sua surrada capa de gabardina e fingia ler o jornal, mas não perdia a movimentação na mansarda.
Há pouco, um leve movimento nas cortinas da janela do primeiro andar – alguém vigiava a rua. Os fatos estavam por acontecer, mas ainda não era o momento de chamar reforços. Janvrier se resignou e continuou sua vigília.
Lá dentro, o homem recém chegado de Argel se serviu de uma garrafa no aparador e espiou mais uma vez pela janela. Sobre a mesa da sala de jantar, a pasta de couro preto parecia inofensiva, mas alguns figurões da política pagariam um alto preço para ver seu conteúdo no fundo do canal. O telefone tocou e o homem de Argel atendeu antes do segundo toque. Ouviu o carregado sotaque do outro lado da linha e estremeceu.
Ele conhecia muito bem aquela voz – era do sinistro “Le Dédou” Faustin, que, sem precisar sair do quarto de fundos de seu mercado de peixes, na rue de Petit-Puis, em Marselha, comandava com mão de ferro as máfias argelina e marselhesa de Paris. O homem na mansarda era um veterano, que não se deixava assustar facilmente, mas as instruções que ouviu fizeram seu sangue gelar. O que estava por acontecer faria estremecer as velhas paredes do Quai d’Orsay. E alguns poderosos do Palais Bourbon veriam suas carreiras encerradas prematuramente.
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A tarde ia adiantada e o sol dourava o tapete de folhas nas alamedas de pedra. A porta da mansarda se abriu e um vulto saiu apressado com a pasta de couro preto. Com um ronco, a Mercedes disparou em direção ao boulevard Richard Lenoir. Do outro lado do canal, Janvier dobrou o jornal e caminhou até a cabine telefônica da esquina. Em minutos, ouviu-se o uivo das sirenes dos carros da Brigada Criminal que avançavam pelo Canal de Saint Martin.
O inspetor Janvrier acomodou-se em uma mesa na Brasserie Dauphine e abriu o pequeno livro de poemas que trazia consigo. Mais uma vez, leu os versos de seus tempos na Normandia:
“Os longos soluços de outono
Ferem meu coração
Com uma lânguida monotonia.
Tudo é sufocante e pálido,
Como os sons das horas.
Me lembro dos velhos tempos
E eu choro.”
A longa vigília o deixara faminto e sedento. Havia feito sua parte e agora nada podia impedir os acontecimentos que estavam por vir. Pediu uma cerveja e um grande prato de Choucroute d’Alsace, com batatas douradas na manteiga.


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