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Os longos ventos de outono

Os primeiros ventos do outono chegaram com força, desfolhando os plátanos e castanheiros ao longo do Canal de Saint Martin. Um sedan Mercedes, de …

Os primeiros ventos do outono chegaram com força, desfolhando os plátanos e castanheiros ao longo do Canal de Saint Martin. Um sedan Mercedes, de modelo antigo, estacionou no calçamento de pedras e um homem alto, de aparência mediterrânea, desceu, caminhando com pressa. Usava sobretudo cinza e um cachecol ao redor do pescoço. Olhou sorrateiro para os lados, antes de entrar pela porta alta da mansarda próxima à Rue des Récollets. Ele carregava uma pesada pasta de couro preto.

***

O canal estava quase deserto – um casal de mãos dadas cruzava a ponte e um clochard tentava pescar seu almoço. Também não havia movimento no convés da barcaça, apenas um filete de fumaça da chaminé e o cheiro de toucinho frito. Do outro lado do canal, o inspetor Janvrier se ocultava atrás do tronco de um plátano. Vestia sua surrada capa de gabardina e fingia ler o jornal, mas não perdia a movimentação na mansarda.

Há pouco, um leve movimento nas cortinas da janela do primeiro andar – alguém vigiava a rua. Os fatos estavam por acontecer, mas ainda não era o momento de chamar reforços. Janvrier se resignou e continuou sua vigília.

Lá dentro, o homem recém chegado de Argel se serviu de uma garrafa  no aparador e espiou mais uma vez pela janela. Sobre a mesa da sala de jantar, a pasta de couro preto parecia inofensiva, mas alguns figurões da política pagariam um alto preço para ver seu conteúdo no fundo do canal. O telefone tocou e o homem de Argel atendeu antes do segundo toque. Ouviu o carregado sotaque do outro lado da linha e estremeceu.

Ele conhecia muito bem aquela voz – era do sinistro “Le Dédou” Faustin, que, sem precisar sair do quarto de fundos de seu mercado de peixes, na rue de Petit-Puis, em Marselha, comandava com mão de ferro as máfias argelina e marselhesa de Paris. O homem na mansarda era um veterano, que não se deixava assustar facilmente, mas as instruções que ouviu fizeram seu sangue gelar. O que estava por acontecer faria estremecer as velhas paredes do Quai d’Orsay. E alguns poderosos do Palais Bourbon veriam suas carreiras encerradas prematuramente.

***

A tarde ia adiantada e o sol dourava o tapete de folhas nas alamedas de pedra. A porta da mansarda se abriu e um vulto saiu apressado com a pasta de couro preto. Com um ronco, a Mercedes disparou em direção ao boulevard Richard Lenoir. Do outro lado do canal, Janvier dobrou o jornal e caminhou até a cabine telefônica da esquina. Em minutos, ouviu-se o uivo das sirenes dos carros da Brigada Criminal que avançavam pelo Canal de Saint Martin.

O inspetor Janvrier acomodou-se em uma mesa na Brasserie Dauphine e abriu o pequeno livro de poemas que trazia consigo. Mais uma vez, leu os versos de seus tempos na Normandia:

Os longos soluços de outono

Ferem meu coração

Com uma lânguida monotonia.

Tudo é sufocante e pálido,

Como os sons das horas.

Me lembro dos velhos tempos

E eu choro.”

A longa vigília o deixara faminto e sedento. Havia feito sua parte e agora nada podia impedir os acontecimentos que estavam por vir. Pediu uma cerveja e um grande prato de Choucroute d’Alsace, com batatas douradas na manteiga.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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