O país assistiu no domingo ao primeiro debate, desde a redemocratização, que merece este nome. Fosse por inexperiência, porque não era prática da política brasileira antes de 1964, o que se tinha visto até agora era uma guerra de marqueteiros, explorando mitos da tevê norte-americana sobre roupas e gravatas, temperados com carnaval, macumba e circo. Fernando Collor de Mello e Anthony Garotinho são as lembranças mais patentes deste passado.
Domingo, não. Para surpresa de todos, o candidato Geraldo Alckmin trouxe à discussão, desde o princípio, as preocupações do eleitorado não-engajado, aquele que responde pesquisas, afirmando que vai se abster ou ainda cita um nome, só por citar, mas só toma sua decisão definitiva às vésperas da eleição.
Foi a partir destes temas – corrupção, gastos públicos, moralidade, enfim, coisas que andam na boca de todos – que o debate tomou o seu rumo e não deve sofrer mudanças nos 20 dias restantes da campanha.
Se houve vencedor, as pesquisas devem sugerir algo nos próximos dias. A esta altura dos acontecimentos, os institutos especializados vão redobrar o zelo para se resgatar das interpretações fantasiosas que permitiram fazer no primeiro turno.
As cartas estão na mesa. A realidade já demonstrou cabalmente que o eleitor brasileiro não é tão otário, a ponto de engolir todos os blefes.
***
A única atitude sensata diante do acidente do Boeing da Gol é esperar a conclusão da perícia nas caixas-pretas dos dois aviões. Todo o resto é pura especulação, diz-que-me-diz-que, absolutamente cruel e injusto para os familiares e amigos das 155 de pessoas que morreram no desastre.
Chama a atenção, entretanto, a entrevista do ministro da Defesa, Waldir Pires, à Folha de S. Paulo, rebatendo afirmações do repórter Joe Sharkey, passageiro do Legacy envolvido na tragédia, de que “o controle aéreo brasileiro é péssimo”. O jornalista só fez repetir o que circula pelos aeroportos brasileiros, inclusive com relato de pilotos a respeito da deficiente comunicação no monitoramento do nosso espaço aéreo. As denúncias são graves e dizem respeito à própria higiene do trabalho: não há fiscalização efetiva do revezamento em turnos de duas horas, para evitar a fadiga de um trabalho altamente estressante. Há também acordos informais entre controladores de vôo, o famoso jeitinho, para acomodar folgas e reduzir plantões.
Confrontado com relatos como esses, o ministro Waldir Pires respondeu à Folha de S. Paulo que “quase todo o pessoal que executa esse trabalho no Cindacta (Centro de Controle de Vôo) é formado por sargentos e cabos que têm salários e são treinados para isso. Trabalham as horas que são compatíveis com a natureza desse trabalho”.
O que o ministro Waldir Pires quis dizer com isso, só ele mesmo sabe. Não percamos as esperanças, porém. Ele prometeu que “vai ver isso”, para verificar a procedência das denúncias. Tomara que o faça bem depressa, antes que ocorra outra tragédia.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial