Colunas

Ou ficar a Pátria livre

Os dias amanhecem quase sempre invariavelmente iguais. Uns com manhãs chuvosas. Ou com fisionomia cinzenta. Sujeitos a chuvas e trovoadas. E os dias mais …

Os dias amanhecem quase sempre invariavelmente iguais. Uns com manhãs chuvosas. Ou com fisionomia cinzenta. Sujeitos a chuvas e trovoadas. E os dias mais otimistas já se abrem com um ensolarado sorriso, sem ninguém pedir. Não podemos, ainda, interferir na roupa que o tempo usa. Mas ouso dizer que os dias podem ser diferentes das previsões meteorológicas. Pelo menos para aqueles que desejam abrir as janelas em dias de chuva e enxergar um horizonte de sol. Existe sempre um olhar subjetivo se você escancara as janelas de sua casa e da sua vida disposta a ser feliz, chova ou faça sol.

Não ouse perguntar qual é o chá milagroso que estou tomando. Nem se abusei dos calmantes e energéticos. Chá de cogumelo, nem pensar. Deixei-me invadir, nas últimas semanas, pela esperança dos mortais, mesmo não sendo a “Velhinha de Taubaté”. Não sei se debito este exagerado otimismo, o visível bom humor, o crescente emocionalismo e o rasgado sentimentalismo (e isso é possível, querida Márcia?) à chegada do meu aniversário – e como geminiana da gema, já dei um jeito de lembrar vocês desta data tão importante. O indiscutível é que tenho amanhecido mais ensolarada.

A viagem ao Espírito Santo, no final de abril, com uma esticada básica até o Rio de Janeiro, que agora sim continua lindo, foi fundamental neste novo jeito de abrir as janelas do meu canto, daqueles que convivem comigo e da minha rotina. O eterno mistério da vida, protagonizado pela chegada da Lohana, sobrinha-neta que inaugurou a quarta geração na família com viés feminino, contribuiu para a visão mais otimista. Mas o que me estimula é um sentimento de que ainda sou forte para buscar alternativas mais dignas para o mundo, de que existem pessoas que lutam e que fazem a hora e não esperam acontecer.

Podem dizer que isto é chavão de esquerda. E daí? Na música do Geraldo Vandré, encontro o fermento necessário para continuar acreditando. Eu não acredito só em fadas e duendes, não. Eu acredito na vontade das pessoas de mudar e reverter a estagnação. Por isso, eu ponho muita fé na mobilização e organização dos movimentos sindicais e sociais para colocar a Conferência Nacional de Comunicação, luta deflagrada, há pelo menos 10 anos pelo Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC), convocada para o início de dezembro pelo governo Lula, na história deste País.

Tenho consciência de que os delegados indicados pelos movimentos sindicais e sociais não resolverão, de vez, o controle dos meios de comunicação deste País, nas mãos de poucas famílias; de que não conseguirão, ainda, intervir muito no conteúdo da programação exibida pelos meios de comunicação e que outros assuntos, como a convergência, prioritária para a democratização, podem ficar esquecidos. Apesar de tudo, empolga-me a convocação da Conferência e a partir daí, a disseminação de que a informação/deformação que você vê e ouve é gerada em meios de comunicação concedidos, isto é, que devem ser revistos.

E se ainda armazenava alguma dúvida sobre o poder dos movimentos organizados em prol de um objetivo coletivo, o convite do gabinete do deputado estadual Adão Villaverde (PT) para um ato em lembrança aos 30 anos de reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE), na noite de terça-feira, calou a minha inquietação. No plenarinho da Assembleia Legislativa, com um público pequeno, em relação à importância do evento e à competente assessoria do parlamentar, todos se emocionaram ao ver um pouco da história daqueles jovens, que em 1979, em meio à ditadura militar, ousaram sonhar e fazer.

Nas cenas do documentário “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”, de Sílvio Tendler, exibido antes da homenagem, a certeza de que nada foi em vão e que sempre é hora de lutar pela liberdade de pensamento no nosso País. Então, clichê ou não, vamos arregaçar as mangas. E retomar a luta pela liberdade de expressão, de informação e de cidadania com a discussão exaustiva sobre a Conferência Nacional de Comunicação. Porque discutir comunicação é discutir democracia e poder.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.