Colunas

Outonais

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“O Outono vai chegar, mesmo que

você não acredite no calendário,

nem esteja preparado para recebê-lo”.

 

Cecília Meireles.

***

O céu com as luzes de Outono me lembra sempre tempos passados, de quando as folhas douradas cobriam praças e ruas que só reesistem nas minhas lembranças. Mesmo sabendo que o passado que buscamos nunca é aquele que vamos encontrar. O bairro mudou, a cidade agora é outra, mas aqui e mais adiante, percebo vestígios vagamente familiares. Não há mais sobrados brancos de janelas azuis nem armazéns de secos e molhados. Mas persiste alguma coisa que se recusa a ir embora.

***

É quando dobro a primeira esquina e vejo, do outro lado da rua, uma loja que tenta sobreviver ao moderno e ao passageiro. É uma pequena livraria anacrônica que parece sufocada entre dois prédios de concreto e vidro. Na porta, uma placa de madeira pintada me desperta saudades:

“Vende-se livros usados”.

É um lugar minúsculo, com livros empilhados por tudo, cobrindo prateleiras, mesas e até uma cadeira de três pernas. Não vejo clientes, apenas um velho livreiro que interrompe o que está lendo, arruma os óculos na testa e resmunga um Boa Tarde. E volta à sua leitura.

Me esgueiro entre as prateleiras empoeiradas, aspirando o inconfundível cheiro de velhos livros lidos e relidos. Volto no calendário, quando éramos estudantes, matando a aula de Química do Irmão Hilário para ir percorrer os sebos do Centro à cata de livros que custavam um terço do preço das novas edições exibidas na vitrina da Livraria do Globo.

Valia a pena e era divertido garimpar exemplares quase novos de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graham Greene, Somerset Maughan, Miguel de Unamuno… Alguns com as páginas coladas, mostrando que nunca foram lidos. E também com carinhosas dedicatórias nas páginas de rosto, testemunhas de romances perdidos.

Naquele dia, não foi preciso procurar por muito para encontrar um Ulysses encadernado em couro azul e um O Coração da Matéria quase novo. Na saida, tento pagar, mas o livreiro, depois de manusear com carinho os dois livros, recusa meu dinheiro, dizendo que não preciso pagar. E que recebeu ordem de despejo, pois o prédio  vai ser demolido para dar lugar a um shopping-center. E que ele ainda não tem idéia do que fazer com seus velhos livros.

***

Saio penalizado, sem olhar para trás. Tenho meus livros e levo comigo uma cena difícil de esquecer. O escritor José Saramago, que também amava os livros, escreveu:

“Acredito que as livrarias tem alma e quando uma delas fecha as portas, todos nós morremos um pouco”.

***

                                                                                

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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