Não sou de carregar preconceitos em relação a nenhuma estação do ano. Guardadas as peculiaridades inerentes a cada uma – verão, outono, inverno e primavera – costumo sobreviver a todas, sem grandes implicâncias e traumas. Conheço pessoas que amaldiçoam as temperaturas elevadas do verão, outras que detestam o frio galopante do inverno e aquelas alérgicas que sofrem na primavera. Para contrariar o meu bom relacionamento com as diferentes épocas térmicas do ano, adquiri, nas últimas duas semanas, sendo mais exata, uma antipatia insistente com o outono. E o sentimento me persegue.
Os dias de outono já nascem com um cenário sombrio. São dias que trazem com o movimento das folhas caídas um sopro de melancolia. O dia tem medo de chegar e cumprir sua função. O sol parece que não quer se mostrar e somente no meio da manhã permite-se alguma exposição. O cenário externo é intercalado de sombras, chuvas, umidade e incertezas. Nunca se sabe qual a roupa ideal a vestir. Não se sabe qual o programa de final de semana que será feito. Não se sabe como irá terminar o dia, se ele mesmo não tem vontade de permanecer.
Tudo transcorre na estação que precede o inverno de forma nebulosa e preguiçosa. Arrisco palpitar que até os relacionamentos se ressentem e deixam as mágoas saírem livremente nos dias e noites de outono. Não sei de estatística sobre o assunto, é apenas uma intuição em função do que observo. Porque existe pairando uma sensação de resolver as encrencas pendentes, já que os dias e noites não se apresentam promissores. Eles apenas cumprem o seu tempo. Ao contrário dos dias de primavera, sempre exuberantes nas suas cores. Ao contrário das noites de verão, sempre calorosas nas suas propostas.
E Porto Alegre parece se impregnar da monotonia do outono. É como se na carona da estação, a cidade completasse um ciclo e, antes do recomeço, é preciso uma hibernação. Por isso, as paisagens ganham tons ocres, os cenários sempre tão exibidos se escondem. Os habitantes de Porto Alegre, sempre vivazes nas demais estações, caminham com o peso dos resíduos do verão e se preparam para o aconchego do inverno. Penso que o outono é assim indefinido porque se situa no meio do verão e do inverno e sofre as pressões das estações fortes. Mas a primavera também enfrenta esta situação e não se deixa abater.
O outono é como o filho do meio sujeito às preferências declaradas dos familiares entre o primogênito e o caçula. O outono é como aquele amigo sempre disponível que só é lembrado quando todos os outros não podem ser parceiros no programa. O outono é como algo que existe, mas parece não ter uma definição no seu espaço. O outono é sinônimo de nostalgia. E nem sempre gostamos de cativar a nostalgia.

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