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“Só a saudade faz as coisas pararem no tempo”. Mario Quintana. *** O sol entrou pela janela, expulsando o resto de frio que sobrara …

Só a saudade faz as coisas pararem no tempo”.

Mario Quintana.

***

O sol entrou pela janela, expulsando o resto de frio que sobrara do inverno. Tomei meu café-com-leite, juntei livros e cadernos e corri para a rua. Nas portas das casas, blocos de gelo soltavam vapor,  se desmanchando nas pedras de ardósia. A caminhoneta verde   do leiteiro Arnaldo subia lentamente a rua, as garrafas de leite sacolejando nos engradados, provocando os cachorros nos quintais. Os jacarandás já se pintavam de azul, avisando que a primavera estava chegando.

***

Minhas férias começavam na primavera e se estendiam até o final do verão. Naqueles tempos, as estações do ano duravam muito mais. Invernos intermináveis com chuva e vento, longuíssimos verões e as luminosas primaveras, quando todos pareciam leves e felizes.

Na fazenda, tudo acontecia com vagar. O tempo escorria, marcado pelo carrilhão da sala de visitas e pelo patekfilipe que o avô levava preso por uma corrente no bolso do colete.

Para saber ‘que dia é hoje’, era preciso ir até a cozinha e consultar a folhinha de dias perto do fogão a lenha. Recordo o gesto ritual do avô, antes de sentar à mesa pela manhã.

Ele arrancava a folhinha do dia anterior, murmurava “um a menos” e só então se dedicava à sua tijela de coalhada, temperada com duas cucharadas de mel de eucalipto. Nas folhas arrancadas, ele lia o nome do santo do dia e depois o provérbio ou quadrinha. Quando as crianças estavam por perto, ele repetia em voz alta:

“ Seda em Janeiro, é fantasia ou falta de dinheiro “.

E outro, que me lembro:

“Setembro, ou seca as fontes ou leva as pontes “.

Mas o que mais o divertia eram as quadrinhas “galantes” :

“Se vires a tarde triste,

E o ar a querer chover,

Saiba que são os meus olhos,

Que choram por não te ver”.

 Algumas, ele devia ter decorado do ano anterior, pois a recitava sem ler:

 “Vou escrever uma carta

Com a pena do quero-quero

Pra te mandar dizer

Que não te ligo nem te quero”. 

***

Tentava me atrasar ao máximo, encompridando o caminho de volta para casa, envergonhado pelas notas em vermelho no boletim do trimestre. As de sempre: matemática, física, química.

Nem os noves e oitos em português, religião e história me livrariam da sentença:  

“- Vais estudar nas férias e nada de matinês aos domingos”.

Mas, naquele dia de setembro, alguma coisa parecia diferente em casa, pois o rádio Telefunken da sala estava ligado a todo o volume. Um speaker lia com a voz alterada as últimas notícias da guerra e  ninguem notou que eu havia chegado.

Enfiei o boletim na pasta e tentei entender o que o locutor dizia, mas  o noticiário terminou e tocavam o Hino Nacional. O pai, com voz pesada, explicou o que estava acontecendo. A guerra havia chegado ao Atlântico Sul – um submarino alemão afundara um navio brasileiro e não havia sobreviventes. O rádio informara o nome do cargueiro: Batovi. Seria o mesmo que saira do porto de Rio Grande, meses atrás?

Meus pais trocaram um demorado olhar e a mãe nos lembrou que na nossa rua morava um oficial da marinha mercante. Estaria êle entre  os tripulantes?

 

Na manhã seguinte, meu pai, com o mesmo ar preocupado, chamou para pedir que eu aguardasse uns dias antes de visitar os amigos alemães da Ramiro Barcelos:

“- As pessoas vão ficar nervosas e pode acontecer algo de ruim”.

***

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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