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Paquidermes, movam-se

Fu Lana sumiu por uns tempos. Saiu de circuito. Só no cinema, sente-se em casa. Uma casa próxima, íntima, específica, mais ao sul do …

Fu Lana sumiu por uns tempos. Saiu de circuito. Só no cinema, sente-se em casa. Uma casa próxima, íntima, específica, mais ao sul do país. Um lugar de gente que não cansa de lembrar o sofrimento, para somente assim se livrar dele. Afastá-lo, falando sobre ele, corajosamente para o mundo, sem omitir nenhum detalhe sórdido.

No escurinho do cinema, foi encontrar uma luz diferente nos olhos de Ricardo Darín, e em seu sorriso convidativo, infantil, dizendo a todos que continuem andando. Não há desistências na Argentina. Sempre há alguém para lembrar e implicar com uma história malcontada, tantas vezes contada, mas, ainda assim, incompleta. Não haverá satisfação. Foi assim com a História Oficial, e agora com O Segredo dos seus Olhos.

Há algo naquele sotaque que encanta. Há algo de especial naquelas insistentes microhistórias, que, tangencialmente, trazem a mesma marca.

Um crime poderia há muito estar resolvido, porém não sob a Justiça que não pune os culpados. Impunidade que impele às pessoas que façam correções com as próprias mãos. Colocam-se em uma prisão perpétua, junto com seus algozes, para que se purguem os pecados contra a humanidade, cometendo censuras individuais, na falta de uma ação organizada.

Uma Argentina que se arrasta, mas está viva. Tem memória, talento, técnica e sangue nas veias. E os olhos de Ricardo Darín.

É covardia.

***

Enquanto isso, onde, dizem, não há guerra, mas apenas uma ocupação militar, uma mulher conta uma história pérfida. Sai da tranquilidade de seus hormônios, inibe a fragilidade e torna-se uma fera.

Aponta a câmera para os poros e as cicatrizes dos homens e faz destilar a adrenalina para dentro de nossas confortáveis mentes, afastadas dos conflitos. Nos tira da mesmice.

Fu Lana saiu do cinema querendo engrossar as fileiras da multidão que deveria gritar e marchar contra a presença do exército americano no Iraque. Uma situação que Kathryn Bigelow denuncia sem o menor pudor: estão colocando bombas em cadáveres de meninos, mulheres deixam sacos explosivos na via pública para que o indesejável inquilino desapareça e não deixe rastros. A população local quer ver os americanos sumirem. Literalmente.

Denuncia também que as mentes dos pobres soldados, mercenários envolvidos, estão sendo destruídas pela droga. A guerra é uma droga, e causa dependência. Não mais se justifica, a não ser pela conhecida ganância de quem está muito longe dali.

Não há um discurso explícito, parcial, em Guerra ao Terror. Há uma apresentação dos fatos. Tal um documentário, um depoimento real. Novamente, na tela surgem os detalhes sórdidos.

As mulheres e os argentinos estão no topo do mundo, acompanhados de um cidadão careca, de ouro. Que eles digam à multidão o que deve ser dito, mesmo que incômodo, mesmo que terrível e desagradável.

São obras assim, propositivas, que trazem as merecidas mudanças de comportamento, que levam nossas mentes paquidérmicas a dar mais um passinho. E que fazem Fu Lana tentar sair do buraco e enfrentar a luz do dia.

Autor

Clo Barcellos

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