Neste momento, em algum lugar deste imenso e aguerrido Estado, existe uma mãe que não se preocupa em lembrar, mais de uma vez, a filha/filho que não saia para uma balada sem levar o documento de identificação. E perdido, na sua solidão em alguma casa de uma cidade do interior do Rio Grande, um pai não precisa mais discorrer sobre uma lista de conselhos para o filho/filha sobre os cuidados ao retornar para o lar depois de uma festa da faculdade. Mas esta mãe e este pai dariam tudo no mundo para voltarem a ser chatos e, novamente, protagonizarem situações banais do dia a dia de quem tem filhas e filhos adolescentes.
Na volta às aulas, em alguma faculdade do Estado, uma mãe lamenta o dinheiro que não irá gastar com o material universitário para a lista da filha/filho recém passada no vestibular. No seu escritório, encravado num município da Região Central do Rio Grande do Sul, um pai lembra que não necessita mais sair às pressas do seu trabalho para emprestar seu carro, que ainda está pagando, para o filho/filha chegar a tempo na aula noturna da faculdade. Mas esta mãe e este pai fariam qualquer esforço possível para reviverem estas situações e, outra vez, cumprirem compromissos assumidos com a rotina de filhas e filhos adolescentes.
No início desta manhã ensolarada de quarta-feira, 27 de fevereiro, dentro de um quarto todo arrumado, uma mãe não terá mais que empilhar peças e peças de roupas sujas e amassadas e reunir os sapatos deixados no chão de uma filha/filho adolescente que saiu correndo para o trabalho ou estágio e deixou tudo por fazer. E um pai, sentado na sua cadeira confortável de frente para a televisão, nos intervalos do Jornal Nacional, não precisará mais mendigar uns minutos da atenção do filho/filha, esperando que abandone um pouco o notebook, para contar que foi ao médico para exames de rotina e que sua saúde está perfeita. Mas esta mãe e este pai gostariam muito de empilharem roupas e roupas e ganharem segundos roubados da atenção de filhas e filhos adolescentes.
Há exatamente um mês (27 de janeiro), algumas mães e pais deste bravo Estado não exercem mais as suas rotinas com suas filhas e filhos adolescentes. Há exatamente um mês, não se preocupam mais se os filhos compareceram às consultas dentárias para a manutenção do aparelho; não precisam lembrar os filhos de telefonarem para os avós e perguntar do almoço no final de semana; não necessitam colocar no carrinho do supermercado aquele iogurte preferido ou o cereal dos filhos; antes de dormirem, não se obrigam mais a entrar no quarto dos filhos para ver se eles estão tapados, se desligaram o abajur e depositar na testa um fraterno beijo de boa noite.
São mães e pais das filhas e filhos da tragédia de Santa Maria. São mães e pais que não se preocupam mais com a faculdade dos filhos, com o dentista, com os conselhos noturnos, com as orientações, com os quartos desarrumados, com o dinheiro para as baladas, com a lista do material escolar. Agora, são poupados de tantas e tantas preocupações que a vida deles até perdeu um jeito de sorrir que tinham, como já disse o poeta.
Para estas mães e pais que insistem em sobreviver, depois de uma dor que não tem mais espaço para se instalar, uns versos da música “Aos nossos filhos”, de Ivan Lins, que eu gosto cantada na voz da Elis: “quando lavarem a mágoa, quando lavarem a alma, quando lavarem a água, lavem os olhos por mim; quando brotarem as flores, quando cresceram as matas, quando colherem os frutos, digam o gosto pra mim”.

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