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Na sessão do “gosto e não gosto”, Fu Lana não tem concorrente. É opiniática, fanática em opinar.  Leu o livro, amou. Pensou: no cinema …

Na sessão do “gosto e não gosto”, Fu Lana não tem concorrente. É opiniática, fanática em opinar.  Leu o livro, amou. Pensou: no cinema não vai dar pé. Ainda mais que, não faz muito, o diretor do filme divulga que detestou o copião e que iria começar de novo.

O medo de frustação é grande. Até que a coragem surge e fica a dúvida: se o filme for bom? Muito bom? Saciar a curiosidade é um de seus esportes favoritos.

Sem sustos, encarou. Não é deprimente. Concorda com a opinião de quem é adolescente: é pesado. Na palavra de Fu Lana é uma obra linda. Um dos melhores filmes na atualidade (Na realidade fulaniana. E já seria mais do que suficiente.)

Ensaio sobre a cegueira consegue destacar as partes fundamentais do texto original. Dentro da obrigação técnica da comunicação cinematográfica, é preciso provocar uma sensação de espaço e tempo verdadeiros, reduzir um texto tal qual o original de Saramago. Para adaptar um livro para o cinema, será necessário um ensaio para o esquecimento.

No entanto, lembrar que todos temos deficiências (pensamento bastante sintetizado, para fins de mídia difusão e entretenimento), é lembrar que todos somos iguais.  Temos muitos defeitos. Fu Lana escolheu racionalmente o que faria em caso de uma epidemia assim: ficaria em casa. Faria como fez o personagem de O pianista, na guerra. Poderia morrer de fome, mas abrigado, mesmo sozinho. Qualquer coisa, menos o inferno de Sartre: o(s) zilhões de Outro(s).

A cegueira branca e azul, quente e gelada ao mesmo tempo, faz enxergar (com o perdão da óbvia figura verbal, a pobreza e a preguiça da escolha). Dica de Fu Lana: inspirar e expirar, ao assistir ao filme de Fernando Meirelles diminui e a sensação de pânico e claustrofobia. A base para aproveitar melhor o filme é respirar. Afinal, um dos sentidos nos será retirado, por quase duas horas.

Daí, a personagem vai buscar a pá. Ela está sob vento e sol. Depois de ter enfrentado tudo aquilo. E a atriz,  descontraída, faz mais do que supõe a referência literal. No entanto, nos convence.

A seleção das cenas do filme, no amplo cenário de recursos visuais da narrativa, é uma escolha que contempla a opção universal. O trabalho alcançou uma superioridade, que faz com que qualquer previsão seja abaixo do esperado. Alguns comentam: o que fica é a depressão. Porém, podemos exercitar em Cegueira… as possibilidades de assumirmos outras personalidades ou estilos de pessoas. Quais seres humanos de fato nos rodeiam? Em quem o ser humano pode se transformar se tentado a ser ele mesmo, durante situações extremas e coletivas? São elementos de transformação. A desestrutura caótica de nossa sociedade, por um fator externo e imbatível é a verdadeira ameaça pública.

Fu Lana tem a síndrome do pânico. Sabe o que significa uma pequena amostra do terror que pode se tornar real em caso de trauma coletivo. Qualquer situação extrema e coletiva traz efeitos ao momento   e a gerações posteriores.

Vivemos em recuperação, recém-saídos de uma doença grave. O mundo está em uma crise internacional permanente e que revela cada vez mais suas entranhas. Os Estados Unios pedem ajuda. O caos está próximo. Em quem poderemos confiar? Cegueira nos ajuda a, pelo menos, descobrir em que tipo de monstro nos transformaríamos. Afinal, quem somos? É um chavão, mas é difícil de compreender.

Fernando Meirelles conseguiu quase o impensável. E é por isso que ele deveria estar com aquela aparência estressada, em uma foto de revista, quando mencionava a necessidade de retrabalho. 

E a atriz Juliane Moore sai vencedora. Por dentro e por fora. Tornou-se novamente uma mulher de verdade, diferente das personagens exageradas que andam circulando no universo fulaniano.

Autor

Clo Barcellos

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