Na sessão do “gosto e não gosto”, Fu Lana não tem concorrente. É opiniática, fanática
O medo de frustação é grande. Até que a coragem surge e fica a dúvida: se o filme for bom? Muito bom? Saciar a curiosidade é um de seus esportes favoritos.
Sem sustos, encarou. Não é deprimente. Concorda com a opinião de quem é adolescente: é pesado. Na palavra de Fu Lana é uma obra linda. Um dos melhores filmes na atualidade (Na realidade fulaniana. E já seria mais do que suficiente.)
Ensaio sobre a cegueira consegue destacar as partes fundamentais do texto original. Dentro da obrigação técnica da comunicação cinematográfica, é preciso provocar uma sensação de espaço e tempo verdadeiros, reduzir um texto tal qual o original de Saramago. Para adaptar um livro para o cinema, será necessário um ensaio para o esquecimento.
No entanto, lembrar que todos temos deficiências (pensamento bastante sintetizado, para fins de mídia difusão e entretenimento), é lembrar que todos somos iguais. Temos muitos defeitos. Fu Lana escolheu racionalmente o que faria em caso de uma epidemia assim: ficaria
A cegueira branca e azul, quente e gelada ao mesmo tempo, faz enxergar (com o perdão da óbvia figura verbal, a pobreza e a preguiça da escolha). Dica de Fu Lana: inspirar e expirar, ao assistir ao filme de Fernando Meirelles diminui e a sensação de pânico e claustrofobia. A base para aproveitar melhor o filme é respirar. Afinal, um dos sentidos nos será retirado, por quase duas horas.
Daí, a personagem vai buscar a pá. Ela está sob vento e sol. Depois de ter enfrentado tudo aquilo. E a atriz, descontraída, faz mais do que supõe a referência literal. No entanto, nos convence.
A seleção das cenas do filme, no amplo cenário de recursos visuais da narrativa, é uma escolha que contempla a opção universal. O trabalho alcançou uma superioridade, que faz com que qualquer previsão seja abaixo do esperado. Alguns comentam: o que fica é a depressão. Porém, podemos exercitar em Cegueira… as possibilidades de assumirmos outras personalidades ou estilos de pessoas. Quais seres humanos de fato nos rodeiam? Em quem o ser humano pode se transformar se tentado a ser ele mesmo, durante situações extremas e coletivas? São elementos de transformação. A desestrutura caótica de nossa sociedade, por um fator externo e imbatível é a verdadeira ameaça pública.
Fu Lana tem a síndrome do pânico. Sabe o que significa uma pequena amostra do terror que pode se tornar real em caso de trauma coletivo. Qualquer situação extrema e coletiva traz efeitos ao momento e a gerações posteriores.
Vivemos em recuperação, recém-saídos de uma doença grave. O mundo está em uma crise internacional permanente e que revela cada vez mais suas entranhas. Os Estados Unios pedem ajuda. O caos está próximo. Em quem poderemos confiar? Cegueira nos ajuda a, pelo menos, descobrir em que tipo de monstro nos transformaríamos. Afinal, quem somos? É um chavão, mas é difícil de compreender.
Fernando Meirelles conseguiu quase o impensável. E é por isso que ele deveria estar com aquela aparência estressada, em uma foto de revista, quando mencionava a necessidade de retrabalho.
E a atriz Juliane Moore sai vencedora. Por dentro e por fora. Tornou-se novamente uma mulher de verdade, diferente das personagens exageradas que andam circulando no universo fulaniano.

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