“Somos o que nossos pais ensinavam em momentos estranhos, quando não estavam tentando ensinar. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria.” (Umberto Eco)
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Em algum lugar, dentro de cada um de nós, guardamos frases de advertência, de censura ou de indisfarçadas carícias verbais que, por anos a fio, ouvimos de nossos pais. No entanto, a não ser em escassos momentos de penar ou de ausência, somos incapazes de perceber a sabedoria daquelas lições de vida que nos eram oferecidas a cada dia de nossas infâncias. E muito menos quando éramos brindados com temperos de amargura ou de ironia.
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Lembro bem quando meu pai definia a lógica da autoridade paterna:
“Vai ser assim porque eu disse – e ponto final.”
Ele tinha grande confiança na justiça divina:
“Um dia, vão ter filhos e tomara que sejam iguais a vocês.”
Mas também conhecia o peso de uma ameaça:
“Continue chorando que eu te dou um motivo de verdade para chorar.”
Enquanto isso, minha mãe aplicava uma lógica cartesiana:
“Se caires da escada e quebrares uma perna, não vais comigo ver o tio Zeca amanhã.”
E parecia conhecer os mistérios da genética:
“Falando assim, você se parece com seu pai.”
Às vezes, era capaz de premonições:
“Quando fores adulto, vais querer voltar aos teus cinco anos.”
No entanto, às vezes desmentia meu livro de ciências:
“Fecha a boca e tome sua sopa.”
Também lembro de sua fé na mágica:
“Vais ficar nesta cadeira até que todo o espinafre desapareça do prato.”
E gostava de estar preparada para as incertezas do destino:
“Use sempre cuecas limpas, para o caso de um acidente e precisares ir pro hospital.”
Ela contava das vantagens de ser adulto:
“Quando tiveres minha idade, vais entender o que estou dizendo.”
E, principalmente, sabia criar grandes expectativas:
“Espera só até chegarmos em casa.”

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