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Parece que foi ontem…

“Somos o que nossos pais ensinavam em momentos estranhos, quando não estavam tentando ensinar. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria.”   (Umberto Eco) *** …

conteudo4328“Somos o que nossos pais ensinavam em momentos estranhos, quando não estavam tentando ensinar. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria.”   (Umberto Eco)

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Em algum lugar, dentro de cada um de nós, guardamos frases de advertência, de censura ou de indisfarçadas carícias verbais que, por anos a fio, ouvimos de nossos pais. No entanto, a não ser em escassos momentos de penar ou de ausência, somos incapazes de perceber a sabedoria daquelas lições de vida que nos eram oferecidas a cada dia de nossas infâncias. E muito menos quando éramos brindados com temperos de amargura ou de ironia.

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Lembro bem quando meu pai definia a lógica da autoridade paterna:

“Vai ser assim porque eu disse – e ponto final.”

Ele tinha grande confiança na justiça divina:

“Um dia, vão ter filhos e tomara que sejam iguais a vocês.”

Mas também conhecia o peso de uma ameaça:

“Continue chorando que eu te dou um motivo de verdade para chorar.”

Enquanto isso, minha mãe aplicava uma lógica cartesiana:

“Se caires da escada e quebrares uma perna, não vais comigo ver o tio Zeca amanhã.”

E parecia conhecer os mistérios da genética:

“Falando assim, você se parece com seu pai.”

Às vezes, era capaz de premonições:

“Quando fores adulto, vais querer voltar aos teus cinco anos.”

No entanto, às vezes desmentia meu livro de ciências:

“Fecha a boca e tome sua sopa.”

Também lembro de sua fé na mágica:

“Vais ficar nesta cadeira até que todo o espinafre desapareça do prato.”

E gostava de estar preparada para as incertezas do destino:

“Use sempre cuecas limpas, para o caso de um acidente e precisares ir pro hospital.”

Ela contava das vantagens de ser adulto:

“Quando tiveres minha idade, vais entender o que estou dizendo.”

E, principalmente, sabia criar grandes expectativas:

“Espera só até chegarmos em casa.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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