Vivi meus primeiros cinco anos em Campinas, 19
Guto tem razão, mas certamente não é por causa da minha pontualidade de primeiro mundo e pelo hábito de responder a qualquer bilhete que não seja de loteria. Nos aspectos primários da educação, nunca dei vexame mundo afora.
No ano de 1959, o Teatro de Equipe saiu de Porto Alegre para apresentar dois espetáculos no Rio de Janeiro: Esperando Godot, de Samuel Beckett, uma co-produção com o Teatro Universitário, dirigida por Luiz Carlos Maciel, a qual, em exposição da RBS, em 2008, foi destacada como um dos principais eventos de Porto Alegre no ano de 1958, juntamente com a fundação do Equipe; e Rondó 58, recital de poesia “coreografada”, dirigido por mim e por Paulo José, que estreava como diretor.
Os críticos teatrais e a imprensa em geral do Rio de Janeiro, ainda capital federal, receberam com extrema generosidade aquelas representações, inclusive com uma matéria de página inteira na Tribuna da Imprensa.
A adida cultural da França no Brasil, impactada pelos espetáculos, nos pediu uma carta para ser enviada para o Ministério da Cultura do seu país, solicitando a nossa ida a Paris. Milton Mattos, na qualidade de diretor do Equipe, foi entregar a carta. Tenho certeza que a pobre da adida já sofrera muito na pele com a desconsideração quase que geral pela pontualidade e, apesar dos poucos minutos de atraso, o Milton me contou que fora recebido com um pequeno sermão.
Anos depois, a renúncia de Jânio Quadros abortou uma reportagem sobre o Teatro de Equipe e uma entrevista minha para o Paris Match. A diretora da Aliance Française,
Terminada a sessão, a jornalista foi aos bastidores e, a seu pedido, marcamos um encontro para uma entrevista minha. Após a entrevista, ela pediu que eu marcasse uma sessão de fotos com cenas da peça com o pessoal caracterizado, o que também foi feito.
Dia seguinte – 25 de agosto de 1961, data da renúncia de Jânio -, aconteceu com a repórter francesa aquilo que acontece com todo repórter ou fotógrafo bafejado pela sorte: estar no local certo na hora certa.
Os três ministros militares, marechal Odílio Denys, brigadeiro Grum Moss e almirante Silvio Heck (historicamente “Os Três Patetas”), impediram a posse do vice-presidente João Goulart como o legítimo presidente.
Brizola, então governador gaúcho, no mesmo dia, mobilizou o Rio Grande pela posse constitucional, assumiu a liderança do movimento e colocou no ar a Cadeia da Legalidade, um pool de emissoras de rádio.
Naquela noite, o “garoto” (20 anos) Paulo César Peréio levou-me ao Mata-borrão, um pavilhão na Avenida Borges Medeiros, e nos alistamos como voluntários para o que desse e viesse.
Na manhã seguinte, o mesmo Peréio, que já mobilizara o pessoal da área, abria o Teatro de Equipe para a instalação do Comitê de Resistência Democrática de Artistas e Intelectuais, e a gente interrompia as apresentações de O Despacho. Menos de hora, e o manifesto do Comitê estava redigido e já com dezenas de assinaturas.
O Comitê vinculou-se de imediato com o Mata-borrão no cadastramento de voluntários e declarou-se em assembleia permanente 24 horas/dia, o que aconteceu até o final do movimento.
Enquanto jornalistas e radialistas alimentavam a Cadeia da Legalidade – a pedido de Brizola -, o Equipe transformou-se na “agência de propaganda” da Legalidade.
Eu, do Palácio Piratini, liguei para o Equipe e, entre dezenas de pedidos, um deles foi para a poeta Lara de Lemos: trabalhar na letra do Hino da Legalidade. Quando voltei ao teatro, Lara já havia aliciado o Peréio, e o hino estava quase pronto, com a autoria da dupla.
Na mesma tarde, levei o “monstro” ao Palácio e, terminada a audição, Brizola pediu que se mudasse “Gaúchos em pé…” por “brasileiros…”. Naqueles poucos minutos, captei lágrimas nos olhos de alguns assessores do governo… Dia seguinte, com orquestra e coro, o hino tocava na Cadeia da Legalidade.
A renúncia interrompera a temporada de sucesso de O Despacho, que voltou a cartaz logo em 2 de setembro, noite seguinte ao pronunciamento de Jango aceitando assumir a presidência no sistema parlamentarista. Na noite anterior, eu estava na Praça da Matriz onde e quando uma imensa multidão, ao saber da decisão, num coro uníssono agrediu o futuro presidente com um único palavrão que, por ética, a imprensa jamais publicou. Eu inclusive, que também fora incapaz de emprestar minha voz ao coro.
O desatino de Jânio (estaria de porre?) tem diversas versões. Inda que, em 1965, eu tenha ficado e continuado muito amigo do secretário pessoal de Jânio na ocasião, depois deputado federal, governador do DF, Ministro da Cultura e conviva no Antonio”s – José Aparecido de Oliveira -, jamais consegui arrancar dele qualquer versão. Zé nasceu e morreu mineiro.
Quanto à repórter do Paris Match, que ganhou de bandeja do desatinado Jânio material para grandes e documentadas reportagens, fez o que eu também faria, despachou minha peça para o espaço.
Pouco tempo depois, através de um plebiscito, o país voltava a ser uma república presidencialista.
O episódio da Legalidade furtou-nos o registro internacional da peça que, décadas depois, me inseriu no Dicionário do Teatro Brasileiro, coordenado por J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariângela Alves de Lima.
Saí da Legalidade com um diploma virtual de cidadão democrata e inda ganhei uma charge a cores, tamanho folha de cartolina, do amigo há séculos, o artista plástico Xico Stockinger: eu fantasiado de Ho Chi-min.
Inté.

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