Era a primeira vez que o velho fogão era aceso depois de muitos invernos. O estalar da lenha lhe trouxe à memória as vezes que se sentara no canto da grande mesa, enquanto a mãe e a avó abriam e fechavam gavetas, limpavam pratos e panelas. As mães são todas iguais – pensou – não param um minuto quando estão na cozinha e só sossegam quando todos estiverem servidos.
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Começou a comer, devagar, quase mecanicamente, enquanto olhava para o fogão enegrecido pelo fogo de tantos anos. Desde criança, nunca vira aquele fogão apagar – mesmo de madrugada, ainda havia brasas e tições acesos. Era só jogar alguns gravetos e uma acha de lenha, que as chamas brotavam fortes, aquecendo de novo a cozinha. As mulheres traziam os grandes panelões de ferro, com o feijão, o arroz de carreteiro e as carnes para os cozidos. Mais tarde, quando todos já haviam almoçado, era a vez das panelas de cobre, carregadas de frutas maduras, para ferver até virarem marmelada, goiabada, doce de laranja e de batata-doce. As panelas ficavam por horas no fogo, as mulheres se revezando na lida de mexer com grandes colheres de pau e de enfiar lenha no fogão. Caía a noite, os perfumes das caldas chegavam até os quartos e nós íamos para a cama com água na boca e com a contida vontade de provar aquelas doçuras borbulhantes.
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Agora, ele contempla as prateleiras vazias. Ali, a mãe arrumava os vidros de compotas, ordenados por nome: Ananás, Ameixa, Bergamota, Batata Doce, Figo, Goiaba, Marmelo… marcados com a caligrafia desenhada da avó Augusta. Mais tarde, a luz oblíqua do sol se infiltrava pela janela, fazendo os potes brilharem com seus amarelos, vermelhos, verdes, roxos azulados…
À sua frente, colocam um prato de arroz-de-leite, polvilhado com canela, do jeito que ele gostava. Era o mesmo doce que serviam todos os dias, enquanto as compotas de frutas não ficavam prontas. E as crianças ficavam ao redor da grande mesa, comendo sem gosto o arroz de leite, espiando gulosos os vidros coloridos, tão perto e tão distantes.
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A mãe e a avó sempre comiam em pé, perto do fogão. Nem sentavam, cuidando para que não faltasse nada à mesa. E assim que pratos e panelas eram retirados, cobriam a mesa com uma grande toalha branca e as tias eram chamadas para encher os potes com geleias e doces em calda. De um lado, os potes sem tampa e com rótulo em branco e, do outro, os potes prontos para serem fechados e etiquetados.
E enquanto as compotas ficavam esfriando na prateleira e no armário da despensa, a casa toda rescendia com o perfume de marmelada, de goiabada, de figada.
Muitos anos depois, uma repentina lufada de vento trazia até ele um vago cheiro das frutas, como se alguém abrisse uma gaveta do passado. No mesmo instante, voltavam vestígios esquecidos em algum canto da memória – as cores das compotas, o calor do fogão… E, mais forte do que tudo, aquele olhar da mãe, quando ele esperava no vão da porta a chamada para provar uma colherada de doce. Mas o tempo apagara tudo, tão rápido e sem aviso. Não havia mais compotas iluminadas pelo sol, nem o olhar que entendia tudo, até suas pequenas mentiras brancas e pecadilhos da juventude.
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Alguém o chamou – estava na hora de ir. Levantou-se para sair, mas parou no vão da porta – o fogo estava se apagando. Voltou e jogou uma acha de lenha sobre as brasas. Mas não esperou que as chamas voltassem.


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