Por muito tempo, aquele foi o assunto que tomou conta de todas as conversas. Não se falava de outra coisa nas rodas de chimarrão e nos assados de fogo de chão. E ficaram esquecidas as estórias de almas penadas e o causo do leão baio, que matava terneiros com uma patada só. Todos queriam falar dos aviões de guerra que um certo dia pousaram na fazenda do Passo Grande.
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Tudo começou quando o peão Edu chegou da vila, agitando um telegrama na mão. Naqueles tempos, receber um telegrama era um acontecimento e raras pessoas os recebiam. E sempre traziam más notícias – doença grave, morte repentina ou uma convocação para guerrear na fronteira. Da porta da cozinha, vimos quando o Coronel Patrício abriu o envelope amarelo e leu a mensagem. O avô ficou calado por um instante, chamou os tios mais velhos e mandou preparar a fazenda para receber visitas importantes que estavam por chegar.
Nós, os meninos, ficamos de boca aberta, sem entender patavina. As crianças da fazenda nunca eram avisadas do que acontecia e ficavam pelos cantos, ardendo de curiosidade. Enquanto isso, o avô mostrava um estranho sorriso, despachando o capataz e o negro Edu para lá e para acolá.
Mais tarde, fomos ver os peões roçar o gramado na várzea diante da casa grande, enquanto o capataz recolhia o gado para as invernadas. E mais um dia de alvoroço com os preparativos – e a criançada, cada vez mais aturdida. Observávamos os tios Alvinho, Arno e Deoclécio chegarem, confabularem com o avô e logo sairem a galope para os lados da vila.
Quanto ao Coronel Patrício, caminhava pensativo até o meio do campo, olhando para o céu de puro azul.
Quando o terceiro dia chegou, sentíamos que alguma coisa extraordinária estava por acontecer. Na cozinha, as mulheres cortavam quadrados de tecido amarelo e vermelho, que o piazito Juca pregava em pedaços de madeira, como se fossem bandeirinhas de quermesse. Então, a avó Ana Augusta veio avisar que haveria um grande churrasco e que as crianças deviam tomar banho e botar roupa limpa e passada.
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O domingo chegou e quando o sol iluminou os campos, encontrou meu avô e os tios em suas melhores roupas de festa, tomando mate na beira do campo. Na grande várzea, duas longas fileiras de bandeirolas amarelas e vermelhas acompanhavam a cancha reta, usada nas corridas de cavalos.
Aos poucos, as pessoas foram se aglomerando na frente da casa e havia muita excitação no ar, ninguém sabendo ao certo o que estava por vir. Quando o relógio da sala de visitas bateu as oito horas, o avô consultou seu Patek Philippe de bolso e anunciou em voz alta:
“Estão chegando!”.
Todos ergueram as cabeças e os olhos à procura de alguma coisa no horizonte. No silêncio do campo se ouviu um zumbido crescente, como se fosse um enxame de marimbondos.
Um dos peões apontou para os lados da Lagoa dos Patos e gritou:
“- E lá vêm eles”.
Como grandes pássaros, os dois aviões chegaram roncando, voando baixo sobre a fazenda, assustando os cachorros e fazendo os cavalos relincharem nas cocheiras. Subiram para o alto, desenharam um grande círculo no céu e pousaram suavemente no campo da várzea. As pessoas correram para ver de perto as máquinas voadoras, que tinham a bandeira brasileira pintada na cauda. Meu avô se adiantou para receber os dois aviadores. Eles fizeram continência e se apresentaram:
“ – Capitão Justo e Tenente Assis, pilotos da Força Aérea Brasileira”.
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O churrasco foi servido à sombra dos cinamomos, com os aviadores no centro da mesa, ao lado dos avós e dos tios mais velhos. As mulheres, na mesa ao lado, cochichavam e riam baixinho, comentando os acontecimentos com os vizinhos e visitantes, enquanto as crianças mal provaram a comida, algariadas com a festa. Depois do almoço, os pilotos se despediram. Colocaram suas toucas de couro e decolaram, fazendo um vôo rasante sobre a casa. Em segundos, viraram dois pequenos pontos brilhantes, que desapareceram no céu luminoso da tarde.
Lentamente, as pessoas voltaram para debaixo das árvores, onde os assadores serviam novos espetos de carne de ovelha. Foi quando o avô contou que a fazenda do Passo Grande havia sido escolhida como campo de pouso para os aviões de guerra que patrulhavam a zona da fronteira.
O gaiteiro Américo foi chamado e encheu o ar da tarde com o choro de seu bandoneón. Cantou uma toada sobre homens que partiram para a guerra e não voltaram. Lentamente, o sol deitava-se atrás dos eucaliptos, lançando longas sombras sobre o campo, onde os peões recolhiam as bandeirolas amarelas e vermelhas.


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