” Sou um guardador de rebanhos
O rebanho são meus pensamentos.
E meus pensamentos são emoções”.
Alberto Caeiro.
O homem caminhou até o campo aberto procurando por alguma coisa desde muito esquecida. Sim, era por ali, devia ser ali mesmo, naquele lugar, onde antes havia um pequeno açude que refletia o primeiro sol da manhã. Parou e ficou quieto, esperando. Então, viu quando eles chegavam, fugindo de uma fenda do tempo.
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Se sentiu meio hipnotizado, olhando os pássaros peregrinos que cruzavam o céu. Eram muitos, dezenas, talvez centenas, formando um “V” perfeito, em direção ao horizonte. Quando bateu o cansaço, repetiu um gesto antigo, sentando-se na grama. Como a criança que deitava no campo, mastigando um talo de capim. Olhando para o alto, espreitando as andorinhas que riscavam o ar, como pequenas flechas. Então, aos poucos, chegou o desassossego – ou seria apenas tristeza? Sem perceber, passou a mão no rosto, sentindo a barba que crescia. Era um dos tais gestos que via os velhos fazerem, absortos, olhando para longe, sentindo o tempo passar. Em que estariam eles pensando, enquanto passavam a mão pelas barbas, cada vez mais brancas?
Era exatamente o mesmo gesto que lembrava no avô, quando ele saía pelo campo, olhando as ovelhas, chutando formigueiros. Tinha o ar vago das gentes que viviam entre lonjuras e horizontes. E muito gosto por bichos, sendo capaz de até ler o voo de corvos e gaviões:
” Quando voam rodando no mesmo lugar, tem terneiro atolado”.
E a linguagem das pequenas andorinhas:
” Voando em círculos, é aviso que está chegando temporal” .
Seus avisos nunca erravam. Acho que era de tanto observar os animais que andavam nos matos e os que voavam nas alturas. Certa vez, apontou pontinhos brancos longe no céu e falou que eram garças fugindo do frio. E, repetindo o tal gesto:
“Mais um outono que se vai e mais um inverno que chega”.
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Naqueles dias, o tempo era marcado pela passagem das estações do ano. No verão, fazia calor e no inverno, frio e vento. Árvores floriam na primavera e folhas caíam no outono. Os homens conheciam como as estações afetavam bichos, árvores e plantações. Na fazenda, não existia calendário de meses, mas se sabia a hora de tosquiar, de sangrar o açude e de acasalar garanhões. Apenas duas coisas marcavam o tempo: o relógio de parede na sala de visitas – sempre atrasado – e a folhinha de dias, na cozinha. Um simples bloquinho de folhas, com o dia e a fase da lua. Era o ritual das manhãs – depois da coalhada com broa de milho, o avô arrancava uma folha, lia o provérbio do dia e falava para si mesmo:
“- Um dia de menos …”.
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Os pássaros já tinham desaparecido ao longe, quando o homem ergueu-se da grama e procurou o caminho de volta para casa. O dia chegava ao fim e longas sombras das altas árvores avançavam pelo campo, como sombras do passado.
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