Depois de levarem o homem ao progresso, os combustíveis fósseis estão levando o homem à perdição. Enquanto os embates sobre a questão ambiental se acirram, um homem vive na idade da pedra. Em plena era digital, tecnológica, quando já se discute o colapso da internet, pelo excesso de acessos e um boom de gigabites, um rio esculpe os seixos, as geadas embranquecem os vinhedos, e um homem vive só, entre seus instrumentos. Enquanto usamos a traquitana energética, dentre chips e nanos, ele usa marretas, cinzéis, ponteiros, bujardas, unhetas, rebolos de carbono-silício, discos adiamantados, pistolas.
Naquela tarde da quinta-feira santa, no Museu de Arte, o ar condicionado fatiava cubos de ar. E há 135 milhões de anos, formavam-se os paredões basálticos que hoje têm mil metros de espessura, na Serra gaúcha. Nessa viagem de vai-e-vem, há 50 anos, um guri se apaixonava pelas pedras e encontrava no rio Taquari, esculturas já prontas. Seria impossível não dividir a parceria de suas criações com a natureza. Se fazia furinhos nos seixos, eles viravam rostos. Se retirava um pedaço bem planejado, eles viravam animais ou seres imaginários.
Desde cedo, o menino percebeu que a natureza detestava o mal-feito. Ao retirar as pedras das margens da água, com vistas a entregá-las à indústria da construção, onde as lascas reviravam nas misturadoras com a brita, o jovem ingênuo notava que o Taquari preenchia os buracos deixados, devolvendo as pedras retiradas. Nascia ali Bez Batti, o artista paleolítico do futuro, no tempo da pedra esculpida e polida.
Fu Lana divertia-se indo e vindo, no tempo e no espaço. Ao lado do Margs, no Santander, vinha de uma exposição da geração tecnodigital. Em uma esteira de metal, um volume movia-se, como um pequeno animal engolido por uma cobra, e as pessoas deitavam-se sobre ele. Trajetos de pessoas por toda a cidade eram registrados em uma tela, com linhas coloridas, através do sistema GPS, em sinais captados a partir de celulares pré-cadastrados, formando arabescos irregulares, medidos por vibrações físicas espaciais. Ali, no Margs, porém, é retirado o excesso de cultura, que desvincula o homem da sua origem. O silêncio de Batti, unido ao silêncio das pedras, compunham a eloquência das formas. E restauravam a tranqüilidade absoluta em nossa confusa vistante.
Até o nome dos materiais soavam engraçados: basalto sangüíneo (de tom vermelho), mármore italiano (branco), basalto cinza (óbvio), basalto negro (idem) e mangano-calcita (uma pedra cor-de-rosa, quase transparente).
Essas pedras transformavam-se em rostos, máscaras, ovos, com furinhos, rasgos geométricos, áreas lustrosas ou crespas, arranhadas ou lisas, opacas ou brilhantes. Uma pedra poderia virar um fruto, poderia fazer brotar um pistilo, na floração da matéria inerte. Como diz Ferreira Gullar, o artista ao ver em uma lasca um bisão, aceitou a sugestão.
As fotos de Valdir Ben, da Serra gaúcha, datadas de 2006, amplificam as mensagens, compondo em nosso imaginário o que poderia ser aquele incompreensível habitat de um homem em pleno século XXI.
Fu Lana teve um professor no Atelier Livre da Prefeitura que fazia com que os alunos curtissem as formas casuais que assumia a argila quando atirada para cima. A orientação era deixar o material assumir a forma do impacto e interferir o mínimo possível. Ela fez o filho e a mãe de pedra, em resina. Definiu, aos tombos, a forma da argila, depois fez a forma de gesso, em macho e fêmea, com a resina colocada no módulo bem amarrado, polindo horas a fio. Era preciso polir muito para deixar a pedra lisa e brilhante.
Imaginou todo esse esforço elevado à potência da força física para abrir crateras no duro basalto. Mesmo em mínimas interferências, Bez é um Deus determinando qual será o imprevisto mantido. Ele desenha a forma, mas não impede o acaso.
Michelângelo, por exemplo, deixou no mármore mais idéia do que pedra. Bez fez o contrário. Nos permite um prazer primitivo na composição de seixos enfileirados, aliados à força de grandes fotos de uma praia de seixos. Há mesmo uma relação mágica entre arte e natureza.
Fu Lana saiu do museu mais leve. Entregava-se novamente ao calor insuportável da rua, mas recarregada, depois de mais uma aventura na área da sensibilidade, fruição e deleite emocional. São fundamentais tais aventuras em épocas de permanente anestesia eletrônica.

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