As divagações são randômicas e os pensamentos, imprevistos. Fu Lana rumina paralisada, em sinuca. Uma guerra na América Latina? Obra e manobra dos maiores interessados nas riquezas naturais. Em uma área rica em petróleo e florestas virgens, o ideal para o apostador é plantar a discórdia para levar vantagem.
A vida toda ouvimos (e bem poderia ser apenas propaganda) que o maior orgulho dos sul-americanos, especialmente dos brasileiros, é de que aqui não haveria espaço para radicalismos. Não seríamos um povo chegado aos extremos. Exatamente quando a negociação era a palavra colocada em uso, quando havia caminhos que apontavam para uma trégua, incluindo a liberação de reféns, irrompe uma situação radical que acirra os ânimos, eleva o conflito envolvendo várias nações, fazendo com que o diálogo se torne uma distribuição de impropérios.
Os norte-americanos, solícitos e em nome da paz, já se ofereceram para apaziguar os ânimos, intervir tal como fizeram em outras partes do mundo, coincidentemente nos mesmos locais em que antes alimentaram as divergências. A América do Sul vai cair nessa? Seria melhor e mais prudente que os interesses em jogo ficassem apenas entre os países latino-americanos, pois, afinal, não iríamos provocar a guerra entre nós mesmos, os vizinhos. O continente torce por soluções civilizadas.
Enquanto isso, nem toda a civilidade absolve. Fu Lana gira a metralhadora mental para a sua própria comunidade. Alguns excessos denunciam algo errado. A prefeitura da cidadezinha onde reside está investindo pesado em uma rede de comunicação via digital entre algumas poucas e privilegiadas escolas municipais. Isso faz a gente lembrar das histórias da literatura situadas em comunidades típicas em que o prefeito, preocupado com sua publicidade e conceito perante os concidadãos, em época de eleição, utiliza o dinheiro público em traquitanas mirabolantes. Seria, por exemplo, equivalente a colocar uma escada rolante na praça principal, não sem antes elevar uma das partes da praça para que as escadas tenham para onde ir. E, depois, desfilar para cima e para baixo na tal geringonça informatizada, pregando a modernidade do município. Os mortais e trouxas aplaudiriam com bandeirinhas. As escolas levariam os alunos para assistir à cerimônia e a banda iria tocar uma marchinha.
Fu Lana ingenuamente pensa que, a essas alturas da civilização, o uso do dinheiro público deveria seguir prioridades determinadas, por exemplo, no Orçamento Participativo, ou em outra forma de participação popular. Não se precisa ser gênio para supor que devam existir outras prioridades além do recurso da informatização, adequado para uma cidade que tem tudo.
Pensando bem, nem as escolas particulares mais abonadas, ou as universidades mais caras, dispõem de tal benefício, e qualquer bom cidadão poderia supor que, certamente, outras necessidades urgentes devem ser sanadas na educação pública.
Se estivesse sobrando tal verba, ela poderia ser emprestada ao Estado que, falido, não permite que os alunos das cidades do interior rural nem mesmo possam cumprir o ano letivo, já pela segunda vez, pois não há transporte escolar e as escolas estão fechando. O que são dez alunos para as estatísticas da Educação?
Fu Lana não consegue fechar o raciocínio. Deveria ir ao cinema, não ler, ignorar as notícias. Apreciar o Big Brother, esquecer que neste ano tem eleições na sua pequena cidade e que não é possível que o povo não esteja enxergando, de novo. Será que não é para frente que se anda?

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