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Pedro Mercosul

O calendário oficial registra que o processo de negociações que culminou com a assinatura do acordo comercial com o Mercosul – palmas para ele -, iniciou-se em 1999. As conversas a respeito, no entanto, começaram bem antes, logo após a segunda guerra, e tiveram no final dos anos 80, quando os debates surgiram de forma ainda incipiente, um defensor quase intransigente, que não perdia oportunidade para martelar nesta ideia. Não fosse a ingratidão da memória humana, Pedro Simon estaria hoje entre os homenageados por sua  decisiva contribuição para a consolidação do que está sendo saudado como o maior pacto mundial de livre-comércio.

Simon governava o Rio Grande do Sul na segunda metade dos anos 80, e enfrentou logo no início do mandato um clima de pessimismo e negativismo no ambiente político e social do Estado. Respirava-se um clima ruim turbinado por uma receita insuficiente para alcançar as despesas e uma dívida cavalar, crescente e incontrolável. As manchetes dos jornais, então os mais prestigiados meios de comunicação, exclamavam repetidas vezes, em suas letras garrafais e sempre nas primeiras páginas, que o Estado era ingovernável.

Não foi surpresa que, ao assumir a condução do governo em março de 1987, Pedro Simon encontrou uma dívida equivalente a mais de três vezes a arrecadação anual do ICMS, algo em torno de 100 bilhões de reais hoje. Mais da metade deste valor estava vencido ou venceria naquele ano. Outra dívida enlouquecida era com os atrasos superiores a seis meses no pagamento a prefeituras, fornecedores e empreiteiras.

A autoestima dos cidadãos era constrangedoramente baixa, e Simon, feito Dom Quixote, se dedicou a procurar liderar uma mobilização regional capaz de elevar este sentimento preciso. Era mais de um seu alvo. Envolvia mexer com os brios de um povo que se gabava de histórica bravura, instigá-lo a reagir, exigir a sua participação na busca de solução para os problemas que o Estado enfrentava, conclamar a união de todos – para forçar decisões políticas – e despertar vontades empresariais.

A retrospectiva daquele período, em especial o ano de 1988, mostrava com clareza que o governo do Estado se dedicava a desenvolver um verdadeiro esforço de marketing para vender um produto chamado… Rio Grande do Sul.

Ao mesmo tempo, Simon atirou-se com gana ao projeto de criação do Mercosul, que ainda estava em suas rodadas iniciais de conversações. Era um grande divulgador da ideia por vislumbrar que Porto Alegre poderia se apresentar como capital deste mercado comum, em função de uma localização geográfica que a coloca a meio caminho entre São Paulo e Argentina e Uruguai. Em um encontro em Uruguaiana, em agosto de 1989, nos encontros com os presidentes José Sarney e Carlos Menem, era o mais entusiasta na abordagem do tema. Ganhou o respeito imediato do líder argentino, que só se referia ao governador gaúcho como Dom Pedro.

Como secretário de Comunicação do Estado, estive com ele nesta ocasião e em um périplo por redações de São Paulo três meses depois. Foi vender o bom momento do Rio Grande, depois de um início de governo desastroso, em 1987, e agitar a bandeira da defesa de criação de um mercado comum sul americano como um processo que contribuísse para ajudar a reativar o desenvolvimento da economia gaúcha.

No centro do país e nos gabinetes de Brasília o tema ainda não estava no foco das atenções políticas. A revista Veja, então com um prestígio invejável, registrou assim a “novidade” batalhada pelo governador: “Simon quer ver os países do chamado Cone Sul derrubando fronteiras e barreiras alfandegárias, tendo o seu Estado como polarizador desse movimento de integração”.

A reportagem de duas páginas adianta que a ideia do governador consistia em tomar a frente do processo de unificação dos mercado dos países do Cone Sul, estabelecendo com Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia um vai-e-vem livre de mercadorias. “Vamos ser o centro econômico desta região, não apenas um corredor de passagem”, defendia Simon, como a semanal pontuou.

Bem, o Mercosul está aí, tratado finalmente assinado. Pedro Simon certamente figura entre os mais felizes com a consolidação da ideia que defendeu com gana quatro décadas atrás. Ele completa 96 anos no final do mês. Eis aí uma data para aplaudir e registrar a devida homenagem.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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