O meu último plantão de domingo, com uma cidade encoberta de cor cinzenta e pingos de chuva que convidavam a uma sessão de cinema com direito a um pacote enorme de pipoca, desde o início, contrastava com uma falsa paz que insistia em me pautar. Como um dia nunca é igual na vida de um repórter e aí reside a maior paixão e o alimento do nosso cotidiano, ao chegar na redação fui mandada para fazer a cobertura da inundação de Alvorada e Cachoeirinha. As duas cidades da Região Metropolitana haviam passado o final de semana submersas nas águas tentando salvar as famílias das fúrias das chuvas.
Quando cheguei no Galpão, em Alvorada, onde estão abrigadas cerca de 20 famílias que perderam seus casebres em conseqüência da inundação do Arroio Feijó, compreendi como deve ser um pedaço do inferno. Na minha burguesa visão de vida, é claro. Habituada ao conforto, sentar para ver televisão e descansar os pés na mesa de centro, pegar um DVD na locadora, curtir o último CD da Maria Rita, abastecer a cozinha de suprimentos no super, tomar meu banho quente quando tenho vontade e dar à minha filha educação, roupas quentes, alimentos. A gente se acostuma rapidinho com tudo que é bom, né?
Então, pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem, não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado pelo amor de Deus. Olhando para os cobertores que serviam de paredes para separar os compartimentos das famílias que mal suportavam um colchão, a música acima “Sobre todas as coisas”, de Edu Lobo e Chico Buarque, que passei o sábado inteiro escutando no novo CD da Maria Rita, não me saía da cabeça. Na minha simplória explicação, pensei que aquelas chuvas já eram uma zanga de Deus, talvez contra os homens que andam por aí destruindo o que ele construiu.
As famílias, aguardando doações espremidas naquele galpão não pareciam muito preocupadas com coisas supérfluas. Mostravam até uma certa intimidade com a rotina do local. Três refeições na hora certa, horário de entrada noturno no acampamento, banheiros limitados e outras regrinhas. Alguns, com mais de 60 anos, curtiam um soninho depois do almoço, alheios aos flashes, que não eram da fama. Donas de casa mostravam preocupação lembrando que haviam perdido tudo que acumularam ao longo dos anos. “Mas, graças a Deus, tá tudo bem com as crianças, dona”, ressaltaram, como todas mães.
Num pequeno compartimento, um som de hip-hop chamou a atenção do fotógrafo. Metida a besta, fui atraída pelo cheiro de perfume forte. Os filhos de uma dona de casa da vila Nova América, que iriam dividir de noite o mesmo colchão de casal, arrumavam-se para a balada e já ensaiavam alguns passos de dança. Nem de perto passava pela cabeça de adolescente daquela turma que o pequeno casebre deles tinha sumido pelo Arroio Feijó. Uma adolescente, afro-descendente, vestindo calça jeans apertada com a barriga lisinha à mostra e prometendo para a mãe estar de volta às 22h, perguntou se “a matéria iria sair no Fantástico”?.
O fotógrafo, que às vezes quer se fingir de muito bravo, sempre que vê uma criança sorri largamente com os olhos e não resiste aos encantos dos menores. Assim, foi implacavelmente perseguido por duas meninas com menos de cinco anos, de pés descalços, sem meias, de tranças e chiquinhas, que pediam “retrato” e soltavam as mais histéricas gargalhadas quando ele mostrava a carinha delas na digital da máquina. O cenário das famílias confinadas no abrigo municipal jogadas ali pela inundação do Arroio Feijó, inventado pelo Criador ou sujo pela Criatura, era bem mais do que uma pegadinha do Faustão.
Na volta, emudeci no caminho. Fiquei alguns momentos eu e esse “Deus que produziu nas trevas o esplendor, que criou tudo – o macho, a fêmea, o bicho, a flor, tudo criado para adorar o criador”, em conversa particular. Até aceitei minha parcela de culpa na destruição de parte do planeta, embora tenha consciência e atitudes ecologicamente corretas. Mas, grande parte de nossa conversa foi de agradecimento pelo que tenho, de desculpas pelas vezes em que reclamo a falta de algo e de ajuda pelos que nada têm.

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