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Nasci em Rio Grande, que é vizinho de Pelotas. Como todos sabem, são as duas maiores cidades do mundo. Depois é que vêm Nova …

Nasci em Rio Grande, que é vizinho de Pelotas. Como todos sabem, são as duas maiores cidades do mundo. Depois é que vêm Nova York, Londres, Paris, Berlim e outro vilarejos metidos a besta aí pelo mundo afora.

O que nós, rio-grandinos e pelotenses, jamais conseguimos decidir é qual das duas metrópoles – a “nossa” e a “deles” – é a mais importante. Resultou  guerra declarada não sei quando, pois já peguei bonde andando, os de Rio Grande, é claro, porque aqueles de Pelotas vou-te-contar, eles chamavam de bonde por mania de grandeza, doença de que sempre padeceram. Inclusive, achando que a padaria da esquina era indústria de panificação.

Até contam que, um dia, em uma excursão de brasileiros à França, o guia turístico teve ousadia de dizer que o Palácio de Versalhes era o mais bonito do mundo. Ao que, um pelotense, presente à excursão, disse com imenso desprezo:

– É claro que o senhor não conhece a sede dos Diamantinos, lá em Pelotas.

Por essas e por muitas outras, chamávamos os pelotenses de sebeiros. Não porque a riqueza da cidade tivesse tido origem no sebo das charqueadas, como de fato teve, mas porque os achávamos metidos a sebo, isto é, esnobes, pretensiosos com suas óperas, faculdades de Direito e de Odontologia, a proibição de entrar em restaurantes e bares e até em cinemas e teatros, mesmo que fosse no “pulgueiro”, sem uma gravata atarrachada no pescoço.

Claro que eles nos devolviam as gentilezas. Éramos os papa-areias. O apodo – ora, se um sebeiro ia dizer “apelido”; quando muito, concediam “alcunha” – resultava da sua absoluta incapacidade de entender a grande aventura que era a nossa caça ao bicho-de-pé, emocionante esporte olímpico que se praticava em Rio Grande com uma agulha, logo após uma benéfica caminhada pelas ruas sem calçamento da Cidade Nova.

Vamos botar os pontos nos is. Mesmo naquela época de rivalidade extremada, jamais houve qualquer alusão à masculinidade (ou à falta de…) dos sebeiros. A lenda nasceu de um acidente. Carlos Nobre, o grande humorista do rádio e da tevê, no início dos anos 50 começou a escrever um programa, Campeonato em Três Tempos, apresentado pelo rio-grandino José Delia, em que os clubes de futebol que disputavam o campeonato gaúcho eram representados por personagens caricatos. O Grêmio era um mosqueteiro valentão, o Internacional, um negrinho muito moleque. O Esporte Clube Rio Grande, por ser o mais antigo do Brasil, era um vovô camarada (deixava todo mundo ganhar dele). O São José era um santo contra cuja virtude todos os demais competidores conspiravam, e o Grêmio Bagé era um gaúcho brigão, que ameaçava dar tiro para todos os lados.

Para caracterizar o Esporte Clube Pelotas, Carlos Nobre imaginou uma figura pedante que só falava supostos preciosismos, contrastando com a gíria dos demais protagonistas. Diria “canino esmechado” em lugar de cachorro quente, espórtula em vez de esmola e por aí afora. A idéia nascera de algumas expressões muito exclusivas de Pelotas, como casa de pompas fúnebres em lugar de armador ou casa funerária e por aí afora.

Quando se tratou de escolher o radioator que faria o dr. Pelotas, a indicação foi unânime: Ismael Fabião. Sendo pelotense, teria mais facilidade para entrar no espírito da caricatura.

Aí é que ocorreu o problema. Seja porque Fabião não entendeu o que o Nobre desejava, seja porque não sabia fazer o grã-fino, o dr. Pelotas acabou saindo afrescalhado..

O sucesso do personagem, desde o primeiro programa, fez a situação sair de controle. Virou moda. O bicharedo de todas as naturalidades, que catava “eleitores” no porto de Rio Grande entre os marujos alçados por muitos meses de viagem, para se engrandecer dizia que era de Pelotas, mesmo que tivessem dado suas primeiras desmunhecadas em São João do Passa Quatro.

Autor

Jayme copstein

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