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Pensem nas crianças deste Brasil de 2020

Por Márcia Martins

Emocionada e enternecida com as fisionomias sapecas e risonhas de amigos e amigas em retratos da infância postados nas redes sociais, pela passagem do Dia das Crianças, o texto da coluna em anos anteriores trataria sobre este momento de fofurômetro. Em que a amiga de uniforme branco exibe um largo sorriso na apresentação da escola. Ou o amigo, que na foto com uns seis anos, não se arrisca a gargalhar para não contrastar com o suspensório. São cabelos cacheados, olhos escondidos atrás dos óculos, pernas finas e braços gorduchos agarrando os bichos de pelúcia. Não consigo trabalhar esta emoção no momento em que a cada dia mais crianças perdem pais, mães, avós e tias vítimas da pandemia da Covid-19.

Saber que muitas crianças estão trancadas em casa, sem poder conviver com os amiguinhos, sem frequentar as escolas porque o retorno às aulas – embora alguns gestores insistam em defender o contrário – ainda representa um risco enorme de transmissão, sem gastar a energia infantil nas praças e parques das cidades, não me entusiasmou ao ver a demonstração de tanta fofurice nas redes. Reconhecer que muitas crianças não conseguem fazer as tarefas escolares porque não têm um computador ou não dispõem de uma rede boa de internet é um fator que inibiu minha euforia ao ver amigos e amigas radiantes nas fotos de meninos e meninas.

Infelizmente, é necessário e urgente pensar também que muitos adultos que agora reviraram o baú atrás de retratos para homenagear o Dia das Crianças são responsáveis pelo caos instalado no Brasil e no mundo com a crise sanitária e, em consequência, pela realidade de uma infância feliz ceifada para crianças de hoje órfãs da Covid-19. Ao não cumprirem as regras mínimas de isolamento. Ao ignorarem a necessidade de preservar as vidas dos familiares. Ao não tomarem as precauções devidas. Ao classificarem uma doença que já matou, no Brasil, mais de 150 mil, como uma moléstia pequena.

É evidente que na minha bolha, a maioria tem um grau elevado de empatia e de comprometimento com o bem coletivo, com a saúde da população e com a divulgação de informações coerentes e verdadeiras sobre o Coronavírus. Em parte – devo confessar – porque eu sou muito chata, patrulheira e cobro posições adequadas dos amigos e das amigas. Claro que tudo tem um certo limite (até a minha chatice) e que muitos já abandonaram, lá por julho mais ou menos, a sua parte de envolvimento nesta tragédia de 2020 que se chama Covid-19. Neste cenário de mortes, de parentes sendo enterrados sem despedida, de total e descontrolada doença, não vi mesmo muitos motivos para rir, gargalhar, comemorar e elogiar os sorrisos de crianças de outros tempos.

Tomara que em 2021 existam mais razões para saudar o que fomos enquanto guris e gurias, lembrar que muitos de nós tiveram uma infância digna, com alimentos, saúde, educação, brinquedos e amor familiar e, principalmente, assumirmos o papel de protagonistas para reescrever histórias com finais pelo mais razoáveis para as crianças que vivem hoje esta realidade em um País doente. Vamos pensar mais nas crianças mudas telepáticas, nas meninas cegas inexatas e nos meninos vítimas de balas perdidas e ajudar a reverter tanta tristeza e falta de perspectivas.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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