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Pequenas delícias do dia a dia

Nas noites ainda tímidas deste outono, nada melhor do que admirar a fumaça que se enrola saliente saindo da panela onde repousa fumegante uma …

Nas noites ainda tímidas deste outono, nada melhor do que admirar a fumaça que se enrola saliente saindo da panela onde repousa fumegante uma canja daquelas que só as nossas avós e, por consequência, as nossas mães sabiam cozinhar. Escolher um prato fundo da coberta de louça que passou de geração para geração, forrar bem seu interior com queijo ralado na hora, despejar uns goles do líquido da comida antes para amolecer o queijo e preparar-se para o ataque. Depois, o gesto é simples e metódico. Saborear com prazer gastronômico cada colher daquela canja, decorada com pedaços de ovo e algumas inserções de tempero verde. Precisa mais do que isto para ser feliz?

Não existem complicações da rotina de trabalho que umas boas colheradas suculentas de canja recém saída do fogão não nos faça esquecer. Não existem contas a pagar entupindo a caixa de correspondência que uma comida feita com emoção e dedicação para saciar a fome não nos faça desdenhar. Não existem dores de cabeça no final do dia que um gesto de carinho simples, como uma incursão na cozinha, não faça desaparecer. Não existem brigas e nem pequenas desavenças que um doce feito às pressas para reinaugurar o carinho não consiga ocultar.

É simples ser feliz e apagar as pequenas encrencas do cotidiano com doses mínimas de carinho. É mais fácil esquecer os instantes de rispidez e mágoas e transformar tudo em perdão. É mais reconfortante entender e acreditar que novos dias e novas noites podem e devem ser escritas com tintas coloridas de forma a modificar os cenários mais obscuros.

Por que as pessoas complicam tanto quanto podem simplificar? Por que as pessoas preferem ficar cultivando os lamentos, as lamúrias e as desconfianças? Por que as pessoas pensam que a raiva, o ódio e o desprezo são sentimentos que devem sempre se sobrepor às emoções como o amor, bem-querer e atenção?

Tudo pode ser atenuado, amenizado e reduzido em ambientes onde o afeto aparece e se instala em todos os cantos do apartamento. Tudo pode ser minimizado quando as pessoas se esforçam para reverter os problemas, oferecendo conforto e harmonia. Como uma canja quentinha, como uma flor inesperada, como um abraço de surpresa, como um beijo na porta de entrada, como um presente sem data especial para ser dado.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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