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Perdas e danos

“- Tio, para onde vão meus brinquedos perdidos?”.

A resposta que eu ouvia era sempre a mesma – 

” – Teus brinquedos não estão perdidos, eles foram para o limbo das coisas”.

E às vezes, o Tio Armando acresentava uma frase que demorei a entender:

“E quando velhos, vamos encontrar tudo

no baú de lembranças”.

***

Escritores como Marcel Proust e poetas como Walt Whitman escreveram sobre a permanente mas inútil obsessão que temos em voltar no calendário para recuperar o que perdemos. Os filósofos dizem que deixar  de viver o tempo presente para relembrar o que passou provoca frustrações pelo feito e pelo não-feito. É comum nos afeiçoarmos a objetos, roupas e coisas do cotidiano. Em criança são os brinquedos que ganhamos no Natal e tantas outras quinquilharias, cujo imutável destino é serem perdidas. Adultos, a tendência é substituir os brinquedos perdidos por novos merecedores de nossa estimação. Uma jóia, uma peça  de vestuário, uma bicicleta – ou um carro. Sem falar nas pequenas e irritantes perdas do dia a dia – os óculos, a caneta-que-estava-aqui. Resta então rezar para o santo padroeiro das coisas perdidas.

***

Para o escritor francês, que perseguia o tempo perdido, nós todos guardamos um acervo de desaparecimentos. Mais do que objetos materiais, são pessoas e cenários esquecidos que são parte de fantasias e de pesadelos.  No outro dia, encontrei por acaso um amigo, antigo vizinho de rua em Porto Alegre. Conversa vai, conversa vem, quis saber quais lembranças que eu guardava daqueles bons tempos. Não precisei pensar muito – lembrei do nosso sobrado de janelas azuis, dos jacarandás floridos de Novembro, da igreja do Divino, iluminada com lâmpadas coloridas, do perfume  de jasmim-manga no jardim de Dona Berta. Só deixei de mencionar os meigos olhos azuis da Maria Lúcia, do nº 307, pois era irmã dele.

***

“(…) E de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. Ficou um pouco de tudono pires de porcelana, Dragão partido, flor branca,ficou um pouco da   ruga na tua testa no retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.

Oh, abre os vidros de loção e abafa o insuportável cheiro da memória.” (C.D.A.).

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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