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Perdoem-me a cara amarrada

Caros leitores, eu hoje estava disposta a falar de flores e os perfumes de jasmim;  das barracas se despedindo da 52ª Feira do Livro …

Caros leitores, eu hoje estava disposta a falar de flores e os perfumes de jasmim;  das barracas se despedindo da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre na Praça da Alfândega, que foi atípica já que só recebeu a minha visita um único dia; do verão que vem chegando, do calor no coração que deixa todas as pessoas desse meu Porto Alegre mais animadas e com suas expectativas de vida expostas sem pudor. Não consegui. Um gosto insuportável de melancolia foi se apossando da minha intenção. E os dedos, sempre ágeis no teclado, começaram a escrever palavras ásperas e a procurar sinônimos para desencanto, tristeza, impotência…

Daí, a me apropriar da música do Ivan Lins, intitulada “Aos nossos filhos”, não exigiu muito resistência. Por isso, peço perdão pela falta de abraço e de espaço. Perdoem, leitores, por tantos perigos, perdoem a falta de abrigo, perdoem a falta de amigos. Os dias eram assim. Mas não deveria ser este o cenário. A resignação não pode ser uma hóspede bem-vinda na nossa rotina. Não se deve, jamais, ceder ao inimigo acomodado e perder o hábito saudável da indignação. Quero todo o dia despertar com folhas soprando seu vento na minha janela, com muito ar puro e com a opção de escolher e transformar os dias ruins.

Nem sempre sou tão poderosa (ah… eu gostaria sim de nunca descer do salto alto).  Ainda não tenho a varinha mágica das três fadas da Bela Adormecida; nem descobri onde comprar o pó de pirlimpimpim da fada Sininho que, às vezes, tenta, insistentemente, me levar para a Terra do Nunca; e nem encontrei a fórmula do amor ou a receita da felicidade. Por isso, nos dias em que sou totalmente dominada pela incapacidade de reagir, pela indisposição diante de determinados temas, pelo desconforto com a existência, vocês podem passar a limpo, cortar os laços e soltar os cintos por mim. Sintam-se à vontade.

Foi essa estranha e decadente sensação de “pára o mundo que eu quero descer que eu não agüento mais” que me levou mais cedo de volta ao “lar doce lar”, no sábado à noite, após um reencontro da Saudosa Maloca (turma da Famecos). Tava tudo muito bom, tava tudo muito bem, mas realmente, aceitei a carona das amigas e cheguei antes do previsto em casa. Tempo suficiente para abrir os braços e acalorar minha filha Gabriela Martins Trezzi, que retornava de uma reunião-dançante para comemorar o aniversário de dois amigos da escola. Tempo de observar, no meu caminho de volta, o submundo da noite da juventude.

Apavorada, eu vi meninas do tamanho de minha filha jogadas nas esquinas vendendo sexo e consumindo drogas, sem muito rock and roll. Chocada, ouvi o choro dos bebês recém-nascidos destas transas mal-resolvidas que ecoava de baixo dos viadutos. E Gabriela, com sua doçura e meiguice, também chegou apavorada. Na sua estréia na violenta noite de Porto Alegre, ela viu uma jovem ser jogada em uma esquina qualquer para que um assaltante pudesse levar sua bolsa. Chocada, enquanto seu pai pensava em parar para ajudar a vítima, Gabriela deixou falar mais alto seu lado sobrevivente e pediu que ele seguisse.

Naquela noite, a pequena pré-adolescente vestiu a roupa de nenê que deixei guardada no baú da memória e dormiu encaixada no meu ventre. Era seu jeito maduro de lavar a mágoa, de lavar a alma, de lavar a água e de lavar os olhos. Já que, no meio de alguns sonhos ou pesadelos, seu corpo esguio estremecia, emitindo sinais inconscientes de que ainda manchava sua serenidade o assalto recentemente assistido.

Perdão, pela cara amarrada. Sei que o caminho ainda vai sugar todo o meu sangue. Sei que noites ainda serão mal dormidas. Sei que orações ainda serão repetidas. Sei que telefonemas ainda irão me assustar. Mas, quando brotarem as flores, quando crescerem as matas e quando colherem os frutos, eu quero a Gabriela como protagonista da festa. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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