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Pescando no passado

Praia de Ipanema, domingo, 1968. Terminado o nosso tradicional vôlei, uma mistura de artistas e publicitários, João Carlos Magaldi, gerente da Standard Propaganda, disse-me: …

Praia de Ipanema, domingo, 1968. Terminado o nosso tradicional vôlei, uma mistura de artistas e publicitários, João Carlos Magaldi, gerente da Standard Propaganda, disse-me:

– Mario, não atrase amanhã, pois Cícero (o empresário), Guilherme (o superintendente nacional) e eu precisamos falar com você.

Fui almoçar com a certeza de que deveria ser algo muito importante, pois dos quatro envolvidos, o único que chegava à agência às 8h15min, todas as manhãs, era eu mesmo.

Fui consultado se poderia ir a Belo Horizonte criar uma campanha para o segundo aniversário do Governo Israel Pinheiro. O crucial era o prazo. A apresentação teria que ser às 16 horas da quinta-feira próxima, no “cineminha” do Palácio da Liberdade. O único dado disponível até então era uma grande reportagem na revista Manchete, que o Adolfo Bloch conseguira junto ao governador, o antigo “capataz” de Brasília. Eu teria que comandar uma equipe da filial da Standard, lá em BH, para alavancar as informações necessárias. Enquanto um contínuo ia buscar uma mala com roupas para mim, o Diretor de Arte, Valdo Mello, concordava em ser meu parceiro na aventura e marcamos encontro já na capital mineira. Tudo a jato, depois do almoço, eu estava na filial da agência, tomando as providências necessárias.

Na quinta-feira, às 16 horas, eu era apresentado – pelo gerente da filial Minas – ao Governador, seu staff e secretários de Estado como um “publicitário paulista residente no Rio”.

Pedi aos participantes que, em face da apresentação ser em slides e textos gravados, inclusive o “monstro” da música criada, as perguntas fossem feitas só ao final.

Terminada a apresentação, coloquei-me à disposição e o governador indagou:

– Jovem, sem ser esse, o outro domingo é o segundo aniversário redondo do meu governo. Dá para colocar a campanha na rua?

– Senhor governador, preciso registrar que nunca vi um mineiro confessar que gostou de algo de forma tão imediata. Dá.

Em menos de cinco minutos, os garçons já serviam uísque e canapés. 

***

WC?

Na minha crônica de 18 de maio, referindo-me ao Borjalo, escrevi “Mauro Borges Lopes”, ou seja, “Borges” em vez de “Borja”, o correto. Na semana seguinte publiquei outra charge do Borjalo, escrevendo o nome certo, é claro. Daí mandei um e-mail para o meu amigo Gustavo Borja Lopes (“Borjalo Jr.”), brincando com ele sobre a “errata sutil”. Ele, então, mandou-me um caso hilário de errata, que transcrevo:

“Mario, o ‘Fantástico’, em sua primeira temporada (fins de 1973 ou começo de 1974), programou um musical com Tony Bennett. A Globo havia comprado toneladas de fitas americanas com shows, justamente para usar no Fantástico. O diretor João Loredo, responsável pelos musicais do programa, delegou ao editor Ronaldo Cury a escolha do número do Tony, dentre os muitos em uma fita de uma hora. Se guiando pela ficha técnica americana, Cury leu algo sobre um balé. Deduziu que seria visualmente rico.

Mandou correr a fita no time-code do balé e gostou do que viu, tudo muito colorido, movimentado, belas bailarinas. Pronto! Decidiu e editou o musical na fita matriz do Fantástico. Pena que Cury não conhecia Tony Bennett, e não viu o material todo… A ficha estava errada, aquele balé era com o cantor-ator-bailarino inglês Anthony Newley. No linguajar de hoje, seria uma "faixa-bônus" no especial de Tony Bennett.

Domingo à noite, musical no ar, gerador de caracteres identificando Newley como Bennett, e alguns telespectadores ligando, uns enfurecidos, outros debochando. Terça-feira, porrada dos jornais. Semana seguinte, porrada da Veja.

Boni não demitiu ninguém e ainda criou uma inspiradíssima chamada, onde Dirceu Rabello, em off, narrava: – "Neste domingo, no Fantástico, o INCONFUNDÍVEL Tony Bennett! Desta vez, vai!"

Abração,

Gustavo 

PS: Este caso me foi contado pelo Borjalo na ocasião, e, anos depois, com os detalhes, pelo próprio Ronaldo Cury, meu colega de ilhas de edição.”

O mesmo Gustavo, referindo-se à minha crônica aqui, na semana passada, “Navegando na memória”, mandou-me um e-mail:

“Mario, belos causos! E eu tive o prazer de ouvi-los de você, pessoalmente. Na próxima navegada, conte aquela (que eu adoro) passada no underground londrino (-"Where’s the water closet?").

Abração, Gustavo”. 

Entonces, lá vai:

Carlos era o irmão caçula de minha mãe e coincidiu que ele e eu, em 1971, passaríamos 30 dias na Europa no mesmo período, ele em Londres submerso num curso full time de Inglês e eu flanando solito por alguns países. Como eu passaria meus últimos dias em Londres, ele ficou de me apanhar no hotel no dia de minha chegada, o que aconteceu e resultou num jantar.

Terminada a refeição, fomos brincar num caça-níqueis em Picadilly Circus e, pouco depois, com vontade de urinar, não havendo sanitário naquele local, avisei-o que ia dar uma saidinha. Logo em frente, havia uma cafeteria e, no balcão, pedi à garçonete um café e perguntei:

– Where’s the water closet, please?

Imediatamente, ela colocou um copo d’água na minha frente, eu percebi o mal-entendido, mas, para não aumentar o vexame, agradeci e agravei o problema tomando a água. Lembrei-me do restaurante onde estivemos, fui até lá, onde já havia ido ao sanitário e respirei aliviado. Voltei ao joguinho e, na saída, a caminho do metrô que servia a ambos, contei para o Carlos que havia tomado um copo d’água que não pedira e ganhei dele um sarcástico comentário de que este caipira de Campinas não precisaria ter viajado tanto para marcar bobeira.

Chegando ao metrô, perguntei ao Carlos se sabia onde era o sanitário. Como também não sabia, ele fez a mesma pergunta que eu fizera na lanchonete a um funcionário do underground:

– Mister, please, were’s the water closet?

A resposta foi que o metrô fechava às 11 da noite e eu tive que parar de rir só para não urinar nas calças.

Depois que aprendi que na Grã-Bretanha não se usa o WC dos norte-americanos, nunca mais bebi água que não pedira.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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