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Piadas de caserna

Vi o cartunista Nani na tevê falando da censura durante nosso tempo de serviço militar. A turma do “Pasquim” foi em cana por causa …

Vi o cartunista Nani na tevê falando da censura durante nosso tempo de serviço militar. A turma do “Pasquim” foi em cana por causa de uma piada do Jaguar: dom Pedro, na cena do grito do Ipiranga, dizendo que queria mocotó. Pra quem não lembra, “Eu quero mocotó” era refrão de uma canção de sucesso da época. Pra se ter uma ideia do nível da letra, lá pelas tantas rimava alicerce com “relex”.

Há duas coisas aí que me intrigam. Como um punhado de frases toscas pode ser sucesso? Huxley está certo, basta uma musiquinha por trás para repetirmos alegremente as imbecilidades mais tristes? Ou é sina desse povo cordial e malemolente? Embora seja um grande prazer falar mal de nós mesmos, sou mais o Huxley.

Claro que os milicos estavam à espera de um pretexto, mas, cá para nós, não podiam ter escolhido pior. A esquerda reagir à mão armada é um sinal claro de que os militares eram levados a sério. A piada comemorativa de 7 de setembro do Jaguar, não, muito pelo contrário. Deve ter sido isso que engasgou o pessoal. Pra disfarçar, depois, nos interrogatórios, nossas briosas Forças Armadas queriam saber onde estava o ouro de Moscou. Um grupo de humoristas recebendo dinheiro do partidão pra incitar os bons filhos de família a caírem na gandaia tem sua graça. Talvez os milicos devessem criar menos caso e se dedicar mais às piadas.

Mas o melhor do que o Nani contou foi sobre o censor que gostava de praia. Jaguar e Ivan Lessa pegavam o material e iam à praia achar o cara. De lá, pra garçonnière dele, onde tinha um pôster da Brigitte Bardot numa parede. Então ficavam esperando enquanto ele folhava as matérias e via as charges, tomando seu uísque.

Me senti humilhado. Não por ser brasileiro. Por ser escritor e não ter imaginação, nem o conhecimento necessário, pra bolar uma cena dessas num romance. O Brasil está acima das minhas forças. Não só das minhas, mas eu tenho de me preocupar com a minha parte.

Humor & ironia

Lembram daquela letra do esplêndido Aldir Blanc que dizia que os boias-frias sonham com bife a cavalo e batatas fritas? Li no jornal “Opinião” ou “Movimento”, dois dos baluartes da oposição nos anos 70, que não era nada disso, que os boias-frias sonham é com melhor distribuição de renda e reforma agrária. Isso dito num tom devidamente furibundo. Certa esquerda merece certos milicos que temos.

Reality show

Bem no começo, me perguntei: “Não é a programação da TV Senado e da TV Justiça? Então não entendi o espírito da coisa”. Agora, tantas cenas grotescas depois, tanta banalidade e idiotice depois, entendi a diferença. O tédio dos realities shows é mais inócuo e eles têm bundas, claro. Qualquer bunda, por menos favorecida que seja, é mais atraente que a cara azeda de um famoso ministro do STF ou que a cara deslambida de vários senadores. Não dou os nomes de medo de um processo. Porque em Pindorama é assim: se você acusar um figurão de corrupto, não acontece nada, fora umas poses de peito estufado e nariz arrebitado pra foto no jornal, mas, se disser que prefere a bunda da Hebe Camargo à sua cara, está frito. Injúria e difamação têm um colorido todo especial por aqui. Os trópicos são tristes, dizem.

Ecos perdidos da eleição

Espiando a imprensa no dia da eleição, descobri que uma das dúvidas mais atrozes que atormentou os eleitores foi se era permitido votar ou não de bermuda. Como um boxeador velho e barrigudo, depois de apanhar dez rounds, eu jogo a toalha. Não me convoquem pra mais nada. Fora algum churrasco — e assim mesmo me avisem antes se será picanha e qual a marca da cerveja.

Autor

Ernani Ssó

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