
Não posso dizer que conheci Nelson Cavaquinho, pois nunca conversei com ele, mas me sorria sempre que eu colocava em seu bolso algumas cédulas recém-saídas do meu.
Era minha participação pessoal num cachê simbólico e voluntário pelas audições que Nelson Antônio da Silva, durante muitos anos, proporcionou à freguesia da cantina La Fiorentina, na Avenida Atlântica, no Leme, no Rio de Janeiro.
Nelson, que trocara o cavaquinho da juventude pelo violão, magistralmente acionado por apenas dois dedos, era assíduo “concertista” das noitadas adentro – no calçadão defronte à Fiorentina – que, a partir de 1957 e durante décadas, foi o “ponto de encontro de intelectuais, jornalistas e artistas nas tardes e noites do Rio de Janeiro”, como está registrado no próprio site da casa.
Na verdade, nessa mistura de profissões, a classe artística era predominante e nessas artes estavam a televisão, o teatro, o cinema, o rádio e o show-business.
É difícil evocar Nelson sem lembrar-se da Fiorentina e a recíproca não é exagerada, assim como é difícil lembrar-se do Antonio’s e não se lembrar do Chico Buarque, do Vinicius e do Tom Jobim.
O Rio tem ícones da sua história boêmia, alguns centenários, como o restaurante Lamas e a Confeitaria Colombo e outros nem tão antigos, mas famosos como o Antonio’s e a própria Fiorentina.
Num livro riquíssimo – Noites Cariocas –, lançado em 2004, o jornalista e escritor Fritz Utzeri reaviva a memória daquele ponto de encontro etílico-gastronômico, como dá a palavra a dezenas de nomes representativos daqueles tempos cariocas. São dezenas de depoimentos de personalidades como Bibi Ferreira, Darlene Glória, Dercy Gonçalves, Ilka Soares, Irmãs Marinho, Norma Bengel, Tônia Carrero, Agildo Ribeiro, Anselmo Duarte, Carlos Manga, Daniel Filho, Dick Farney, Edu da Gaita, Jaguar, Jece Valadão, Juca Chaves, Miéle, Sérgio Cabral (pai), Tarso de Castro, Ziraldo e o bon vivant Jorginho Guinle.
Nelson Cavaquinho, autor e coautor prolífero, assinou mais de 400 composições, e Guilherme de Brito foi o seu parceiro mais constante. Ambos deixaram marcas fortes na MPB, em músicas como Folhas Secas e Rugas. A poesia está presente na composição da dupla de compositores que, com Alcides Caminha em A flor e o espinho, eternizaram os versos
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Há momentos em nosso cancioneiro popular que a música sai embalada pela poesia da letra em trechos como Dora, de Caymmi:
Os clarins da banda militar tocam para anunciar
Sua Dora, agora vai passar.
Venham ver o que é bom
Há momentos, também, que os ouvidos nem acreditam nas metáforas que ouvem, como provaram Orestes Barbosa e Sílvio Caldas em Chão de Estrelas:
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão
E a picardia, a parolagem malandra de Noel Rosa, cuja comemoração do centenário de nascimento encerrou-se agora, em 11 de dezembro? Conversa de botequim não me deixa mentir:
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo
E um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita
Com muito cuidado
Que eu não estou disposto
A ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
E se você ficar limpando a mesa
Não me levanto e não pago a despesa
Pois é, vem aí o ainda inédito 2011 e desejo às leitoras e aos leitores um ano pródigo de grandes encontros, como teve a MPB com Nelson Cavaquinho. Nelson é o tema da sua escola – a Mangueira – no desfile do próximo Carnaval, iniciando um ano de comemorações pelo centenário de nascimento do compositor, nascido em 29 de outubro, gênio musical que, na parceria com Guilherme de Brito, errou feio errou feio quanto à memória popular em Quando eu me chamar saudade:
Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.
Inté.
Vitrine (comentários sobre crônica anterior: “Peru na mesa e sinos badalando”)
Mário. Bom dia. Texto maravilhoso. Descobri que você é gaúcho. Não sabia. Existem no Brasil duas culturas muito fortes, que eu respeito. A minha (mineira) e a sua (gaúcha). Cultura não se compra em shopping nem se adquire em faculdades. Estou com ideia de escrever um livro. O título seria Socorro! Fiquei rico. Quero sua opinião e sua ajuda. Vamos falar sobre o assunto. Um grande abraço. José Maria Herdy de Barros, empresário, Rio.
(Resposta: Não sou gaúcho. Sou campineiro, mas cresci em São Paulo, onde morei dos 5 aos 24 anos de idade. Depois, dois anos de Rio e sete de Porto Alegre: (teatro e jornal – 1957 a 1964. Depois, publicidade no Rio. Abração)
Boa crônica, tá do peru! Feliz Natal do Coelho. Que continuem cultivando o hábito do Peru. Eduardo Coelho de Almeida, São Paulo
Maravilha, Mario e um feliz Natal para você e toda família. Beijos dos padrinhos Olegaria e Welles

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