Foi em um daqueles dias, quando o céu de Buenos Aires exibe tons de azul cobalto, quase metálico. Era quase na hora do almoço e a brisa de primavera soprava leve do Rio da Prata. Eu me preparava para praticar o mandamento portenho que diz que devemos “comer como um santo”. Escolhi um bodegon de esquina, sem saber o que encontrar.
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O Café Margot é daqueles lugares que não se desnudam imediatamente aos marinheiros de primeira viagem. A primeira impressão é de certa estranheza, mas, aos poucos, percebe-se que estamos em um ambiente com alma. Consigo um lugar no balcão de madeira envernizada, depois de me esgueirar entre mesas ocupadas por operários de macacão sujo, executivos de gravata e senhoras de ar nostálgico. Todos discutindo com gusto e calor os mesmos assuntos – os feitos e desfeitos da Casa Rosada e o próximo jogo do Boca Juniors. Nos pratos, descubro o motivo da fama do lugar – imensas porções de empanadas, papas fritas e sanduiches de lomo. Mas ainda vou descobrir outros segredos deste movimentado bodegon. Aqui, os pratos não são servidos na forma tradicional, dispostos educadamente pelo garção à frente do cliente. Da cozinha, vem um grito:
“ Veinte y uno – Peceto com panceta”.
Dois segundos depois, o veinte y uno desliza pelo longo balcão, passa velozmente por mim e estaciona à frente de um cliente sentado mais adiante. E ninguém parece se surpreender com aquele malabarismo, pois continuam bebendo e mastigando como se nada tivesse acontecido.
Assim funciona há décadas este velho bodegón de barrio, mais uma estória no inesgotável folclore cotidiano de Buenos Aires. O cliente faz o pedido, ganha um número e senta-se ao balcão para beber sua cerveja enquanto espera. Em alguns minutos, um cozinheiro grita o número do pedido – e, com a coreografia de um arremessador de baseball, lança o platito, que desliza pelo balcão até o cliente.
Claro que erros acontecem. Às vezes, o cozinheiro exagera na força do lançamento e o prato ultrapassa o cliente e se espatifa na parede. Neste momento, como um coro ensaiado, assovios e vaias enchem o salão. Mas notei que os lançamentos precisos não ganham aplausos. Dizem que, se um platito volador errar de cliente, ele não paga, mas deve comer o prato que lhe foi entregue por engano.
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Alguns minutos mais e ouço meu número gritado na cozinha e mal tenho tempo de erguer o copo do balcão:
“ Quarenta y dos – Empanadas de San Juan”.
O prato desliza pelo longo balcão e meia dúzia de douradas e crocantes sanjuaninas pousam suavemente à minha frente. Foi meu almoço mais divertido daquela primavera portenha
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