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Podem me chamar de idiota

Por Márcia Martins

Quem escreve esta coluna a partir de hoje pode passar a ser chamada de idiota. Ou pelo menos assinar Márcia Martins, a idiota. Se facilitar, uma vez que existem outras e outros idiotas resistindo por aí (já não são tantos, muitos desistiram da caminhada), até digam que é a mãe da Gabriela, avó do Quincas, colunista do site, jornalista, feminista e poeta, agora moradora da Cidade Baixa. Tenha total liberdade para usar tal adjetivo. Não fique constrangido de me classificar assim. Não vou entender como desaforo, nem será motivo de importunação. Confesso um certo orgulho em ser taxada assim.

Segundo o dicionário Aurélio, idiota é uma pessoa que carece de inteligência, de discernimento, tolo, ignorante e estúpido. Já o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), numa das suas conversas com apoiadores na frente do Palácio do Planalto, na segunda-feira, 17, ao criticar o isolamento social, encontrou outro significado para a palavra. Para Bolsonaro, que não perde uma oportunidade de falar bobagem, quem fica em casa obedecendo as medidas restritivas para evitar a propagação da Covid-19, recomendadas pela OMS, é um idiota. 

Vale lembrar que, mesmo os já vacinados com uma ou duas doses (não importa), precisam manter o isolamento social, o uso de máscaras, a limpeza constante com álcool em gel e o distanciamento mínimo nas situações em que não se pode ficar dentro da casa. Ah, sim, faltou reforçar que as aglomerações continuam proibidas. Tudo que o presidente não incentiva a população a fazer, aliás, até desdenha, e que ele mesmo nega nas frequentes mobilizações com os seus seguidores, apertando as mãos, abraçando as pessoas, sem manter distância adequada e sempre sem máscaras. 

Pois, hoje, quarta-feira, 19 de maio, completo 430 dias no mais total isolamento, confinamento social e distanciamento rigoroso. Desde 16 de março do ano passado que estou reclusa em casa, saindo apenas para compromissos de saúde, umas duas ou três vezes visitei a filha e nora e arrisco passeios diários para levar o lixo na frente do edifício. Claro que sou privilegiada por ser aposentada e não precisar sair para garantir meu sustento. E por contar sempre com o suporte da filha para compras em supermercado, farmácia e outras necessidades. 

Mas sinto um orgulho enorme em ser uma idiota que não está ajudando a espalhar o Coronavírus. Gosto de resistir e permanecer uma idiota que cuida não só da sua saúde como é uma peça importante para evitar, ao meu redor, que a Covid-19 encontre abrigo e espalhe seus malefícios. Continuarei a ser uma idiota ao cultivar a empatia e meu compromisso neste momento no País. Não sou, de maneira nenhuma, uma assassina, uma genocida e uma responsável pela morte de mais de 437 mil brasileiros e brasileiras vítimas da Covid-19. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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