A revista IstoÉ desta semana publica entrevista com Martha Rocha, a baianinha que empolgou o país com sua beleza e a chance de se tornar a segunda Miss Universo brasileira, em 1954. A matéria, antecipando a autobiografia, ainda inconclusa e sem data de lançamento, conta as atribulações de Martha, desde que desembarcou da embalagem dourada com que a comercialização da fatuidade embrulha miragens adolescentes, até encontrar a paz e a felicidade de uma vida comum em Volta Redonda.
De permeio, a viuvez aos 23 anos, de Álvaro Piano, o grande amor da sua vida, um segundo casamento tumultuado e um câncer de mama, felizmente superado. E mais o empobrecimento, roubada que foi pelo cunhado e co-sogro Jorge Piano, o que a obrigou a trabalhar para viver.
Não que Martha não valorize o que ficou para trás. Sem obrigação de encarnar modelos que as pessoas exigem como compensação pela frustração dos seus próprios sonhos, aos 70 anos ela tem “muito o que comemorar” porque é ótimo estar viva, rindo, trabalhando, viajando, ter liberdade de ser.
Não podia faltar na entrevista a indefectível pergunta sobre as supostas duas polegadas a mais de quadris, que a “desclassificaram” do concurso. Foi considerada a segunda mulher mais bonita do mundo, mas no Brasil, perpetuamente sufocado pelo ridículo de seus governantes e pela corrupção dos seus políticos, não ser o primeiro é tragédia nacional.
Está na hora de se remeter o mito para a lata do lixo, de onde, aliás, nunca deveria ter saído. Na entrevista, Martha Rocha atribui a outros fatores ter chegado em desvantagem na etapa final. “Eu estava cansada, só queria dormir. E também estava sem comer direito, a comida dos Estados Unidos era muito ruim, muito sanduíche com maionese e alface, tenho horror a ambos.”
Houve ainda um incidente, para deixá-la tensa e insegura no desfile final: tinha combinado com Fábio Ramos, repórter da Folha de S. Paulo, que ele pegaria a mãe de Martha no hotel para levá-la ao concurso. Preocupada porque não conseguiu ver dona Hansa na assistência, perguntou ao jornalista o que tinha havido. Ele se esquecera do compromisso. Martha foi encontrar a mãe, depois, no saguão do hotel, sentada em um sofá, onde esperara horas a fio, em vão.
Em tudo isso, de onde saíram as duas polegadas?
É Accioly Netto, em “O Império de papel – os bastidores de O Cruzeiro”, que desmascara a farsa. O “Miss Universo”, milionária comercialização da beleza feminina, no Brasil era promoção dos Diários e Emissoras Associados. A revista, no auge de seu prestígio, havia encharcado seus milhões de leitores com o célebre já-ganhou. Eram favas tão contadas quanto a Copa do Mundo de 1950, que os uruguaios ergueram em pleno Maracanã.
Accioly havia enviado a Miami, para cobrir o evento, o repórter João Martins, o mesmo da parceria com Ed Keffel, na cascata do “disco-voador” da Barra da Tijuca. Quando o júri decidiu a vitória da americana Miriam Stevenson, os repórteres brasileiros reuniram-se para encontrar uma explicação para a “derrota”. Como todos tinham embarcado na canoa furada do “já-ganhou”, de comum acordo, mas por sugestão de João Martins, fabricaram as duas polegadas a mais, devidamente temperadas com a predileção dos americanos por “tábuas”.
Foi por isso que, páginas adiante de “O Impérior de papel”, Accioly Netto ressalva, no caso do disco-voador, que Ed Keffel não se prestaria à farsa, apesar da capacidade técnica para fazê-la. Mas guarda eloqüente silêncio a respeito de João Martins, o autor do texto da reportagem e, com toda a certeza, mentor do “óvni” de araque.

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