Se ponha o senhor no seu lugar

Por Márcia Martins

29/05/2025 10:30
Se ponha o senhor no seu lugar

Quando vejo cenas de um Brasil racista, misógino, machista, com homens reproduzindo, do alto de uma posição equivocada de superioridade em uma sociedade patriarcal e escravocrata, como o ataque à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, lembro de uma reação da vereadora Marielle Franco (PSOL) em seu discurso no dia 8 de março de 2018. "Não serei interrompida. Não aturo interrompimento dos vereadores desta casa. Não aturarei interrupção de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita", disse a vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em 14 de março de 2018.

Porque ninguém, independente da posição, cargo ou função que ocupa, tem o direito ou deverá nos dizer qual é o nosso lugar enquanto mulheres. É clichê sim, mas merece sempre ser repetido: o lugar da mulher é onde ela quiser. Ninguém irá calar a nossa voz. Ninguém irá interromper os nossos pronunciamentos e falas. Ninguém irá nos silenciar jamais. Podem tentar. Mas será em vão.

Convidada a comparecer na Comissão de Infraestrutura do Senado para falar da criação de áreas de conservação na Região Norte, na terça-feira (27), a ministra Marina Silva ouviu de dois senadores declarações machistas e ofensivas. Num episódio que entrará para a história do Senado como um dos mais lamentáveis, Marina foi insultada, desrespeitada, ofendida e sofreu um ataque de violência política de gênero. Mulher forte, de fibra, guerreira e que não se curva diante de homens que costumam ganhar no grito, Marina deixou a sessão.

O que se viu naquela comissão foi um show de horrores respaldado num cenário que tenta, de todas as formas, afastar as mulheres, sobretudo as negras, como Marina, dos espaços de decisão, do parlamento e da vida pública. O senador Plínio Valério (PSDB-AM) afirmou que respeitava a mulher, mas não a ministra, e por isso, estava separando a mulher da ministra. E o senador Marcos Rogério (PL-RO), que presidia a comissão, além de cortar diversas vezes o microfone de Marina e interrompê-la, disse que a ministra deveria "se pôr no seu lugar".

Mas, vejamos, Marina foi convidada e não convocada a falar como ministra, e uma das mais competentes na área do meio ambiente e preservação do clima. Se o senador Plínio Valério, como afirmou, não respeita a ministra, ela não tinha motivo de permanecer no local. Marina foi muito coerente. E quanto ao outro senador, o Marcos Rogério, que inúmeras ocasiões durante a sessão praticou violência de gênero: "se ponha o senhor no seu lugar". Valente, que não leva desaforo para casa, Marina retrucou Marcos Rogério, ressaltando que ali não estava uma mulher submissa.

Não é possível silenciar diante de cenas de violência política, sejam elas no Senado, nas assembleias ou nas câmaras de vereadores. As ofensas destes senadores não podem ficar impunes. Ou continuaremos (e não queremos) no 133º lugar no ranking global de mulheres no parlamento, atrás de países como Iraque, Egito e Arábia Saudita.