
Lilian Lemmertz, Antonio Abujamra e Rogério Fróes, ela sem suspensórios
Deplorei na semana passada o fato de que a crônica que iria não foi. Sumiu-se. Nela, havia algo mais que “um abraço do Rogério Fróes, ganhador do prêmio especial do júri no Festival de Cinema de Pernambuco pela sua interpretação em Não se pode viver sem amor”. Rogério, em 1955, quando fui contratado pelo Teatro Rural do Estudante, no subúrbio carioca de Campo Grande, para dirigir espetáculos teatrais, era caixa de banco. Dirigi alguns shows e peças, e A Almanjarra inaugurou, naquela localidade, o Teatro Artur Azevedo, homenagem da Prefeitura ao autor. Outras duas peças inauguraram a Arena do grupo e hoje é um dos Teatros de Lona da cidade. E o Rogério atuou em todas.
Paschoal Carlos Magno, entusiasmado com nossa encenação da Almanjarra no Artur Azevedo, levou o espetáculo e toda a crítica teatral carioca para o Teatro Duse, em sua casa. Isso, mais um prêmio logo depois, no 1º Festival Brasileiro de Teatro Amador, organizado por Dulcina de Moraes no teatro que depois recebeu seu nome, na Cinelândia, deram visibilidade ao grupo e ao Rogério Fróes, que não podia, ainda, assumir a profissão, amarrado aos encargos financeiros com a família. Quando conseguiu assumir a vocação, não parou mais, somando grandes sucessos no teatro, no cinema e na TV.
Pois nesse festival de 1956, Antonio Abujamra e eu reacendemos nosso conhecimento de São Paulo. Agora, 54 anos depois, recebo dele notícia de que na próxima sexta, dia 21, entra em cartaz no Espaço Unibanco de Cinema Augusta, o longa-metragem Solo, de Ugo Giorgetti, realizado no ano passado com o apoio da TV Cultura e com Antonio Abujamra como solista.
Perdi aquela minha crônica, mas não os e-mails decorrentes da notícia e resgatei-os para usá-los, parcialmente – e com toques sutis – para contar parte do que se perdeu, com a devida licença da nova teleamiga, Margarida Oliveira. Ao Abu, por direito de antiguidade, nem falei nada. A localização do Espaço Unibanco mexeu com minhas memórias e, como havia o e-mail de MargaridaF&M Procultura para mais informações, mandei:
Abu e eu somos amigos há mais de 50 anos. Pergunto: sou paulista radicado no Rio e havia, na Augusta, quase Paulista para quem vai do antigo Centro, um cinema, Piolim, se não me engano. É o mesmo?
Resposta: “… o Espaço Unibanco desde 1993 ocupa a área do antigo Cine Majestic (lembra?)…”.
Este velho repórter foi à luta e esclarece: o antigo cinema não era Piolim, nome de famoso palhaço, mas Picolino, e ficava a menos de 50 metros do Majestic e foi fechado em 1969. O Picolino, em 1954, no Festival Internacional de Cinema do IV Centenário de São Paulo, sediou a mostra paralela dos filmes franceses e lá assistimos – Flávio Rangel e eu – ao Salário do Medo (Le Salaire de la Peur), direção de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand, Charles Vanel, Falco Lulli e a nossa Vera Clouzot, née Amado.
Luís de Lima, mímico e ator português, que logo depois veio trabalhar e residir no Brasil, fazia o papel de um suicida que se enforca. Na versão comercial do filme, cortaram a sua parte. Tempos depois, me coube o gesto de consolar o amigo com a revelação de que eu assistira ao filme na íntegra.
Num e-mail perguntei ao Abu qual a estimativa de tempo do filme dele em cartaz.
Resposta: “O texto é do diretor Ugo Giorgetti com quem fiz FESTA e ganhei o Kikito de melhor ator. Que país é esse… Te amo. O filme deve aguentar uns dois dias, porque um ator falando em cinema sozinho, nem Laurence Olivier…”.
Mandei para Margô, com cópia para Abu: “Cá entre nós, em 1957, o Abu me levou para dirigir peças para o Teatro Universitário (Porto Alegre) e na primeira que dirigi, O Provocador, do autor gaúcho Paulo Hecker Filho, ele foi um dos intérpretes”.
Abujamra, extrapolando nossa infinita e recíproca amizade, alucinou: “E você mudou a cidade!”.
E Margô mandou: “Mas você fez parte de uma história linda do teatro. Quem me dera…”. E sobre outras considerações minhas, continuou: “Naquela época era tudo melhor e você tem razão ao dizer que a faixa dos 30 anos é imbatível, mas hoje, hoje mesmo, eu gostaria de ter 40. Assim teria paciência e calma para enfrentar essa deselegante vida moderna que nos atropela”.
Quanto à referência dela à “história linda do teatro”, estou aplaudindo de pé, lembrando-me de uma época onde se fazia teatro de repertório – tragédias gregas, teatro francês, Ibsen, Shakespeare, Shaw, Calderon de la Barca, O’Neill, Thorton Wilder, Tennessee Williams, Arthur Miller… – e os espetáculos começavam na terça-feira e iam até o domingo, com dois vesperais e duas sessões aos sábados: nove, por semana! O descanso do elenco às segundas-feiras, para a maioria que, à tarde, ensaiava o próximo espetáculo, era um descanso compulsório.
Vou concluir, mas se alguém puder me representar na sexta-feira na exibição de Solo, vai ficar me devendo essa, enquanto eu fico devendo ao amigo Gustavo, por problema de espaço, a história da “alma do índio”, o tema da semana que vem.
Inté.
Ah, e a atriz Lilian Lemmertz?
Foi uma descoberta de Abujamra que, em 1956, a dirigiu em A Margem da Vida, de Tennessee Williams. Ela foi, em 1975, companheira de elenco de Rogério Fróes no filme Lição de Amor e, em 1962, foi a Nossa Senhora no Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, direção minha no Teatro de Equipe. Lilian é ausência que não se esquece e saudade que não se esgota.
Vitrine relativa à coluna anterior
Mario, espero ansiosamente por duas coisas: “Um Navio no Espaço” de volta ao Rio (perdi), e saber se índio tem alma (aguardo a próxima crônica).
Abração. Gustavo Borges Lopes, profissional de TV, Rio.
No comentário, ao pé da própria coluna:
Era uma vez – “Ler as suas histórias faz um bem pra alma. Afinal, nesse mundo precarizado, globalizado e filhadaputado, descobrimos com vc algo ainda bom nessa vida. Valeu.”
Tito Oliveira – Rio de Janeiro/RJ/Brasil.

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