
Quando me perguntam se vale a pena votar, sempre digo que sim pois a descrença na política não diminui o seu impacto sobre a vida das pessoas. A política existe para garantir o bem comum e a primeira coisa que precisamos compreender é que a falta de crença na política não significa que ela deixe de fazer parte da nossa vida. E neste contexto cabe a frase clássica: se é ruim com a política, seria pior sem ela!
Podemos não gostar de política, não acompanhar o noticiário ou estar decepcionados com os políticos, mas são as decisões políticas que definem o quanto pagamos de impostos, como funciona a saúde pública, a qualidade da educação, as regras da segurança, os investimentos, as políticas sociais e grande parte das condições que interferem no nosso cotidiano, inclusive se o país vai apoiar uma guerra ou não.
O eleitor está cansado, desmotivado e analisa os candidatos mais por rejeição do que por preferência. São muitos anos de escândalos, conflitos, polarização, promessas não cumpridas e dificuldades concretas na vida das famílias.
Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, percebemos que esse cansaço muitas vezes se transforma em descrença. O cidadão começa a pensar que todos são iguais, que nada muda e que participar não faz diferença.
Claro que esse sentimento precisa ser respeitado, porque ele nasce de experiências reais. Mas existe uma diferença entre estar decepcionado com a política e abrir mão de participar através do voto.
O voto não resolve todos os problemas da democracia e não encerra a responsabilidade do cidadão. Ele é apenas um dos instrumentos de participação, mas é um instrumento muito importante porque é o momento em que cada pessoa tem o mesmo poder formal de escolha. Independentemente de renda, profissão ou posição social, cada eleitor possui um voto e tem a capacidade de escolher quem lhe dará voz, seja no estado ou em Brasília.
Quando votamos, não estamos escolhendo apenas uma pessoa. Estamos ajudando a definir projetos de governo, prioridades para os recursos públicos e representantes que tomarão decisões em nosso nome durante os próximos anos.
Por isso, sempre gosto de resgatar o sentido da política, que existe para organizar a vida coletiva e buscar o bem comum. Quando as pessoas de bem se afastam porque estão decepcionadas, a política continua existindo e as decisões continuam sendo tomadas.
Ao mesmo tempo, votar também significa assumir uma responsabilidade sobre a escolha. Não basta apertar um número na urna e voltar a pensar em política somente quatro anos depois. A democracia precisa de cidadãos que escolham, acompanhem, cobrem e, quando necessário, mudem sua escolha.
Talvez o maior desafio desta eleição seja justamente recuperar alguma esperança em meio a tanta descrença. O brasileiro pode estar cansado da política, mas continua querendo uma saúde melhor, uma escola melhor para os filhos, mais segurança, oportunidades de trabalho e uma vida melhor para sua família. E tudo isso passa, de alguma maneira, pelas decisões políticas.
Por isso, mais do que perguntar “por que sou obrigado a votar?”, talvez devêssemos perguntar: “quem eu quero que tome as decisões que também irão afetar a minha vida?” O voto não exige que o eleitor acredite cegamente na política. Exige que ele não abra mão do direito de participar das escolhas que definirão o seu futuro e o futuro da sociedade.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial