Quando a atrapalhação não passa com o tempo, o problema não é o tempo. Fu Lana perdeu o pé um dia desses. Trocou horários, misturou as divulgações.
Entrou no cinema errado, cinco minutos antes de começar a sessão. Encontrou vários amigos no caminho, mas não parou para conversar. O que eles fariam ali, casualmente no mesmo horário, profissionais de cinema e comunicação reunidos? Na bilheteria, foi informada: haveria apenas uma sessão de um outro filme naquele horário, “só para convidados”. Ficou sem chão.
Ao invés de se enturmar, arrumar um convite, integrar-se ao acaso, bateu pino, saiu desajeitadamente, com pressa pelo centro da cidade, à noite, desejando um produtor que desse conta de sua agenda, para o lazer e para o trabalho. Afinal, é tudo a mesma coisa.
Em suma: tocou-se para a Casa de Cultura Mario Quintana. Passou pelo Cais do Porto. Viu movimento, luzes, festa, mas resolveu seguir. Tinha a sensação de que estava perdendo alguma coisa. Um sentimento freqüente no caldo efervescente de oportunidades.
Foi antipática com os amigos, desdenhou opções e voltou para casa sem ter visto ou ouvido nada de útil. Abriu uma cerveja, um jornal e contabilizou: perdera um show do Jazz 6 no Cais do Porto, um debate sobre tecnologia e criatividade na Sala Multiusos do Santander, uma palestra no Margs, um encontro com Edgar Vasques e Rodrigo Rosa na Livraria Nova Roma e perdeu também os horários de cinema da Casa de Cultura. Conseguiu apenas ficar presa no trânsito, nas idas e vindas em ruas atopetadas de carros, motos e ônibus. Um produtor para organizar a cabeça desejava ao final da noite.
Porém, às 22h40, purgou o sono em uma sala de shopping para fi-nal-men-te assistir a Jogo de Cena, documentário de Eduardo Coutinho.
Se você for artista, cineasta, ou mesmo curioso sobre a construção dos personagens em cena, um apaixonado pelo teatro, que curte o drama e a literatura, vai adorar o filme, que coloca na tela a alma feminina brasileira, em textos prá lá de originais.
Os embates entre documentário e ficção, literatura e autobiografia, realidade e invenção são os temas do momento. Que diferença faz? Uma é uma pessoa pronta e a outra é a construção de uma fantasia. Já disse Fernanda Torres: é muito mais fácil construir uma nova pessoa, atribuindo a ela trejeitos e memórias, do que através do mimetismo reproduzir uma vida real em ficção, sem a compreensão necessária, sem colocar a sua contribuição.
Seria esse o objetivo de Coutinho? Provar para o público o que ele já sabe: que o documentário é sempre mais convincente, mais verdadeiro? Parece que o diretor quis abrir os bastidores para que a gente conheça os artifícios e métodos utilizados no trabalho dos atores e de outros profissionais na realização do cinema. Uma aula de dramatização. Um pós-graduação para os profissionais das artes cênicas.
Reality show ou recurso técnico? É tentador descobrir quem é de verdade e quem está atuando. A moral da história é que tudo continua sendo processo: o personagem, o ator, nós e a indústria da arte. É muito prazer junto. E lágrimas. Disse Marília Pêra: as lágrimas são bem-vindas, as pessoas desejam as lágrimas, nem que sejam provocadas por cristal japonês. No entanto, as mulheres de Coutinho são de verdade, e também atuam. Todos nós atuamos, nas palavras de Nei Lisboa, dessa grande peça de teatro.

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