As chuvas e os ventos fortes do inverno, mais do que rigoroso em 2011, deixaram Porto Alegre uma cidadã muito feia. Com a cara amarrada de contrariedade, as rugas expostas sem tratamento anti-idade, os olhos pesados e cansados, o corpo enfraquecido e o cérebro enferrujado. Com os pingos da chuva amparados por sombrinhas e guarda-chuvas, nem sempre bem conduzidos, tornou-se tarefa de equilibrista caminhar pelas ruas da capital do Rio Grande do Sul. Conseguir pegar um táxi nos finais de tarde para cumprir um compromisso urgente com horário transformou-se num prêmio de Mega Sena. O sol amigo nas tardes de domingo nos parques virou um bilhete premiado.
Por isso, escancaro os meus braços, solto a voz, mesmo que desafinada, libero as minhas emoções, abro todas as janelas da minha vida para saudar os primeiros dias lindos e convidativos de prévia de primavera em Porto Alegre. Nada é mais lindo (sempre com minha mania de generalizar, mas vai lá…) do que a cidade vestida com as cores e os tons da estação que sucede o inverno. As ruas enfeitadas com os brilhos do sol, as calçadas sujas com o resíduo das árvores que se despedem do clima frio, as praças e parques novamente começam a ser habitados nos sábados e domingos pelas famílias e seus penduricalhos: crianças de todos os tamanhos, cachorros e gatos e brinquedos.
Porto Alegre se mostra desinibida e faceira quando chega a primavera. Renasce. Sai do seu casulo. Despe-se de pudor. Abandona a timidez. Apresenta-se parceira. Solta-se nos pensamentos. E convida para os devaneios. Porto Alegre é totalmente elegante quando chega a primavera. Ao contrário de seu comportamento no verão, quando fica um tanto desleixada sufocada pelo calor, na primavera, a cidade abusa da moda casual chique. Como se estivesse sempre pronta para sair, a capital gaúcha tira do armário os trajes com flores, com perfumes silvestres e tons de cores mais abertas. E, como não se permite no inverno, Porto Alegre aceita os convites para todos os programas na primavera. Ela não se esconde.
As manhãs de quase estréia da primavera em Porto Alegre são especiais. Circula no ar uma mescla sugestiva de frio tímido e um arrogante e convidativo calor sem definição. O final da manhã é sempre uma incógnita. Nunca se sabe se o sol conseguirá se impor ou se a insistente escuridão no céu ganhará o espaço. As tardes permitem sonhar com expectativas variadas. É possível apostar num chá que escapa de ser inglês porque ocorre às 18h. Ou num chope bem tirado que não chega a ser um happy porque apetece antes das 19h. Até simplesmente apenas trabalhar olhando a paisagem que exige as venezianas de qualquer peça do trabalho ou da casa abertas. E as noites aceitam todas as sugestões da imaginação do morador de Porto Alegre.
Quem não gosta de Porto Alegre mais arejada e simpática, como a cidade se revela na primavera, bom sujeito não é, já dizia o samba aqui adaptado. Porque a cidade inspira. A cidade se renova. A cidade se enfeita. A cidade se arruma. A cidade se perfuma. Toda a ideia promete dar frutos na capital gaúcha em setembro. Tudo floresce na capital gaúcha neste mês. E o habitante sai da toca e respira aliviado. E agradecido e abençoado pela beleza de Porto Alegre.

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