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Porto nada alegre

Meu caro leitor e minha cara leitora me perdoem, por favor, se eu não lhes faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta coluna. Aqui em Porto Alegre tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’roll, uns dias chove, noutros dias bate sol, mas o que eu quero é lhes dizer que a coisa aqui tá feia. Sim, me apropriei de um trecho da música “Meus Caros Amigos” (1976) do meu grande e declarado amor (toda a torcida do Grêmio sabe disso), o Chico Buarque, para dizer que a capital gaúcha começou 2026 da pior maneira possível. Com pequenas adaptações, usei a letra do Chico para dizer que não temos nada a comemorar, nada a aplaudir em Porto Alegre.

Pois Porto que já fui muito alegre um dia – ai, que saudades – começou 2026 com perspectivas nada positivas para seus habitantes. Uma cidade que já foi a metrópole brasileira de melhor qualidade de vida, que já foi exemplo para outras administrações, que já foi acolhedora, que já teve políticas assistenciais para os sem abrigo, hoje convive com a possibilidade de retroceder de vez. Se é que já não retrocedemos! Ouso dizer que sim!

Isso em decorrência de promessas do prefeito Sebastião Melo. No programa Gaúcha Atualidade, da RBS, do dia 31 de dezembro (ainda em 2025), ele informou, entre outras barbaridades, que pretende regrar a doação de comida para pessoas em situação de vulnerabilidade, e revelou que irá pedir aos prefeitos do interior que não encaminhem pessoas sem condições financeiras para Porto Alegre.

Juro que não quero acreditar nestas duas intenções (digamos assim) do senhor prefeito. É como se ele negasse a realidade de ausência total de políticas públicas assistenciais para as pessoas que moram nas ruas na cidade. Como se elas quisessem morar nas ruas, não ter onde habitar, mendigar e gostassem de depender de doações para se alimentarem. E agora, dependendo do Sebastião Melo, também terão que ver regradas as doações de comida. Não dá para aceitar de jeito nenhum uma punição para as pessoas em vulnerabilidade que já são punidas pela falta de condições dignas de sobrevivência.

E apelar aos seus colegas prefeitos que não mandem pessoas sem condições financeiras para a capital gaúcha revela um destempero total, uma falta de humanismo. Algo inaceitável. Vamos fechar a cidade? Na linha do que fez o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), que admitiu oferecer passagem de volta aos que chegassem na capital catarinense sem emprego e local para morar?

Como sempre pode piorar (e não estou sendo pessimista, apenas me ligando aos fatos), no mesmo programa ele anunciou o fechamento de bares mais cedo. Não citou os bairros, mas provavelmente não serão os estabelecimentos do Moinhos de Vento, e sim os da Cidade Baixa, sempre visados pela atual administração.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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