Aproveito a recente visita papal do Ranzinger aos EUA, onde fez um meio mea culpa (sim, a pedofilia deita e rola no reino de Deus), para republicar orações de quem não ora. Sabemos há muito: os mistérios gozosos têm muito gozo mas não são tão misteriosos assim, são apenas sacanagens com menores de idade. Gritos e sussurros à capela, onde badalam bagos no campanário. Filho fiel, ajoelhou tem que rezar. Por tudo que há de mais sagrado, oremos por esses desregrados. GRAVE MANIA Tara devassa O senhor é um asco Maldito algoz Entre os altares Maldito surto Do baixo ventre, cruzes! Mente doentia Mãos de ateu Rogai pornôs* À Gomorra e ao ora, ora Do sumo sacerdote Amém!
(*Com licença do meu amigo Nani, que pensou primeiro a variante Orai Pornôs, título do seu ótimo pocket de cartuns.)
PADRE NOSSO QUE ESTAIS DE RÉU Denunciado seja o vosso nome Venha a público a vossa ignomínia Não mais seja feita a vossa vontade Assim no catre como no catecismo O pau vosso de cada dia guardai hoje Não perdoamos liturgia canalha Assim como clérigos prevaricadores Nos deixeis curtir as condenações E livrai-nos de tal animal Amém!
RESSALVE LADAINHA A vós maldizemos perniciosos filhos das trevas Condonados e não-batinados A vós supliciamos neste falo de lágrimas Após, sonsa senhora, desabençoai-os Não nos envolvei atrás dos vitrais E depois mostrai o seu sujo caráter Ó reto, ó rígido, ó vigoroso, levantai o cós Sua mão maliciosa parai e paralisai E que sejais expulso desse infernal paraíso Amém!
DESCREIO EM PADRE TODO LIBIDINOSO Fornicador no céu e na terra Um anti-Cristo, nosso horror Conheceu crianças virgens Gemeu sob o poder de tantos atos Sodomizou e foi sodomizado Subiu pelas paredes da sacristia Está masturbado com a mão direita Entre ais e missais De onde virá ejacular as vítimas Jovens devotos Descreio nesse espírito insano Na Santa Igreja Erótica Na comunhão sob mantos Na omissão dos papados Na sujeição da tenra carne Nessa viadagem eterna Amém! (Original publicado aqui mesmo, em 24/6/05 |
Preâmbulo: há algumas semanas, fui duplamente presenteado com um livro. Por um lado, um gesto carinhoso a me preencher dias na praia. Por outro, um conteúdo a me abastecer para sempre. A obra é O Livro das Vidas, os obituários do New York Times. Leia-se como um registro jornalístico ou como um exercício humanista, o que fica é uma experiência encantadora: você termina um perfil e imediatamente sente saudades de alguém que jamais imaginou existir. Acaba o livro e os vultos permanecem, infiltrados no leitor por belíssimos e tocantes textos, o inspirado ofício de uma dúzia de obituaristas. É um legado que confirma o valor da consideração pessoal: todos nós temos uma história singular e todos merecem ser tão de perto conhecidos. O jornal escolhe pessoas comuns que tiveram trajetórias incomuns. Não por coincidência, já que a ceifa não pára ao nosso redor, li e acabei o livro entre perdas. Desde o ano passado se enfileiram tristezas no meu calendário. E o livro, que me cativou pelo talento profissional, virou um consolo afetivo. Pois, de uma forma menos significativa, já começo a me acostumar a fazer obituários. Hoje, já estava conformado em ter de fazer um; aí, num aviso repetino, outro estremecimento me obriga a fazer dois.  O Tuio Becker é uma das pessoas mais queridas a que tive acesso, bastante acesso. Nossa produtiva amizade iniciou quando fomos redatores na MPM, lá no enorme prédio do morro da TV, em 77/78. Doidos por cinema, foi paixão à primeira vista. Malucos por baralho, foi contagiante. Hábil e talentoso como crítico de cinema, um IMDB da época pré-internet, Tuio conquistava a todos com seu entusiasmo, o que devia colaborar para encher salas. Particularmente, a vocação do Tuio se concretizou além da sala escura: se transformou em cineasta, produzindo curtas, até se tornar peça-chave no boom do Super 8 no RS. Tuio era roteirista,diretor e produtor. Isso quer dizer que era capaz de, num fim de semana, imaginar e propor e partir para uma filmagem rápida, e o filme estava feito. Em outras vezes, planejava e realizava com calma e ardor, e outro filme se concluía. Em ambos os casos, resultavam em obras sensíveis, de gêneros variados, com linguagem própria. Como Truffaut ou como Carlos Saura (seu ídolo), Tuio se inclinava para temáticas intimistas ou sociais, muitas vezes apoiado em humor, traço evidente da sua cativante personalidade. Por esse viés, Tuio fez a mim e outros amigos e colegas parceiros em alguns projetos. Juntos, roteirizamos e encenamos uma paródia de Contos Eróticos, o premiado Contos Neuróticos. Com um destemor criador e critério despudorado, me fez atuar em 12 episódios como ator principal, logo eu, um canastrão de marca maior. E me apresentou e me envolveu em projetos do Sérgio Silva, do Davi Quintans, do Carlos Carvalho, entre outros. Sem nunca interrompermos o carteado, que ele adorava. Durante anos, sua casa virou um cassino às sextas-feiras. Mas tudo que de afetivo e caloroso vou preservar do Tuio, com sua verve deliciosamente venenosa e graça ferina, é anterior a 1985, antes de ir para o Rio (em 78, o Tuio e o Wanderley Ponzi foram para Paris e me deixaram como guardião da sua barraca de antiguidades no primeiro ano do Bric da Redenção. Por quatro domingos, virei antiquário, só por querer muito bem a alguém.). Quando retornei à cidade, início de 2005, em vez de encontrar o Tuio, o desencontro definitivo: a doença que o mantinha a anos-luz diante dos amigos. Por adiar esta visão, acabei não vendo de novo o Tuio. Meu coração se parte de uma vez só, agora. (E, por saber tardiamente, perco o enterro, que acontecia enquanto escrevia.)
 O que é a existência da gente sem as testemunhas mais antigas? Agora que avanço para as três, talvez quatro, últimas décadas de possibilidades neste belo planeta, surge uma triste seqüência de perdas de pessoas que sabem quem fui e, logo, me ajudam saber quem sou hoje. A Maria era uma delas, minha vizinha de infância e juventude na Vila Bom Jesus. Única irmã entre vários irmãos da família do seu Antônio, honrada pessoa, que criou e educou os filhos a partir de uma carroça de verdureiro. Naquela casa, convivia com os meninos através das balburdias de quintal e brincadeiras ao ar livre. Meu mais remoto amigo, desde mais de 50 anos, é um irmão da Maria, o João Luiz Franco Machado. Além dele, compartilhei a energia juvenil com o Toletino (Tininim, já falecido) e o Francisco (Quico), além de um pouco menos com o Antoninho e o Eduardo. Mas era só com a Maria que eu compartilhava meu cérebro: éramos parceiros de leituras, líamos de tudo, e nossa mútua falta de recursos era suprida com empréstimos e as trocas de revistas e livros entre os moradores do bairro. Maria tinha inteligência e sensibilidade suficientes para seguir um caminho intelectual, não duvido. Mas a terraplanagem das oportunidades encontrou rochas maiores, e ela virou mãe de família e se ocupou de pôr no mundo pessoas tão decentes quanto ela. Semana passada a Maria se foi e deixou 3 filhos e uma infinidade de netos e enteados que a amavam por ser como era: firme e suave, divertida e séria, um grande par de asas a cobrir a ninhada de atenção e cuidados. Dela, guardei sempre o senso de humor, um certo deboche às vezes a bailar nos olhos e um risinho maroto no canto de boca. Em nossos reencontros, sua faísca numa conversa iluminava seu olhar e esses momentos nos conduziam até lá atrás, 56/57. Lá ficaram nossas melhores páginas.
(Por que torno públicas essas afeições e estas saudades? Para me precaver, caso eu mesmo me esqueça de mim sem a Maria, o Tuio e outros que estão se indo.) |
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