O outono, aquela estação do ano mais aconchegante do que o inverno porque não inibe, não afasta, não assusta e nada impede, invadiu as terras do Hemisfério Sul nesta quarta-feira, 20 de março, precisamente às 8h02min. É o momento da despedida das águas de março, fechando o verão, com promessa de vida nos corações, como diria o maestro maravilhoso Tom Jobim. A luz da manhã, o tijolo chegando, uma ponte, um resto de mato. Última oportunidade para se permitir ainda exibir parte do bronzeado já desbotado que se conseguiu no verão. Última chance de curtir com os amigos um happy com as mesas nas calçadas. Rápido, enquanto ainda se vê sinais de um belo horizonte.
Aproveite para abastecer seus armários, estantes, adegas, roupeiros e desalojar amores mal vividos do seu coração. Porque o outono apetece todos os prazeres e as ousadias. É o momento de comprar echarpes, mantas e agasalhos para os primeiros dias e noites mais frias que se aproximam. É a ocasião para adquirir livros novos para que sejam consumidos avidamente quando a chuva insistir em cair torrencialmente. É a vez de renovar seu estoque de vinhos e aprender novas receitas de fondue e treiná-las para quando o inverno chegar. E se ainda habitar seu coração um amor mal resolvido ou que signifique muita dor de cabeça, o outono incentiva os despejos. Sem direito nenhum a aviso prévio.
Enfeite-se de romantismo e veja a beleza que existe no movimento das folhas que caem. Deixe a rabugice de lado e admire o barulho dos pingos da chuva estalando nas vidraças. Afaste a preguiça e convide a turma da faculdade ou do serviço para um encontro no final de semana. Faça uma lista de todos os filmes que você ainda não viu e tome o rumo da locadora ou do cinema se ainda estiverem em cartaz. Programe-se para visitar sua cozinha com mais frequência para experimentar novos sabores salgados ou doces, algo que vá além da pipoca de micro-ondas ou da cueca virada que acompanha os chás nas tardes de domingo.
Com o vento ventando, as folhas caindo, um frio mais forte ameaçando chegar, é provável que a gente se esqueça de algumas barbaridades que andam acontecendo e que nos assustam. Como a atitude do pai de Alex Siwek, motorista que atropelou um ciclista na Avenida Paulista no dia 10 de março e carregou o braço decepado da vítima durante um tempo. Hostilizado por pessoas na porta da delegacia, o pai de Alex ironicamente e com humor negro disse aos jornalistas que não iria decepar o braço deles também. Ou da cara de pau do goleiro Bruno que pegou pouco tempo de cadeia pela morte de Eliza Samudio e de sua defesa que prometeu pedir anulação do júri que o condenou.
É melhor voltar a pensar no outono e nas possibilidades que ele traz. Na chuva chovendo, é conversa ribeira, das águas de março, é o fim da canseira… É uma ave no céu, é uma ave no chão, é um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão.

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