“Os silêncios, ele tinha guardados de muito tempo.
Morreu tal como quisera, por gostar da solidão;
Solteiro, sem filho nem neto
pr’a chorar porque se foi”.
Colmar Duarte.
***
Edu era um homem por demais vivido para acreditar em assombrações ou almas d’outro mundo. Mas ficou assustado com o que estava acontecendo com aquele garanhão. Ele sabia que os bichos não mudam da noite pro dia. Ali tinha coisa – e muito da esquisita.
Enquanto pensava no que fazer, mandou banhar e escovar o cavalo até seu pelo malacara brilhar ao sol, as crinas e a cola leves ao vento. Até parecia dócil, como que esperando o momento de galopar campo afora. Mas, desde o outro dia no cemitério, não deixava ninguém montar, jogando ao chão dois vaqueanos dos bons.
Era uma estória enroscada de explicar. Tudo começara no dia do enterro do castelhano Casildo. O cortejo subia devagar a lomba do Cemitério das Dores, com o malacara a cabresto da carroça que levava o caixão. Tarde abafada – as lápides brancas ofuscavam ao sol, os parentes e a peonada esperando impacientes a hora de voltar para a sombra dos cinamomos.
Foi quando as carroças e charretes desciam em silêncio o morro, que tudo se desembestou. O peão que levava o malacara soltou um grito, quando o cavalo empinou, arrancou as rédeas e disparou lomba acima. Estacou no portão enferrujado do cemitério, escoiceando a terra e relinchando como doido. O cortejo parou, as pessoas se entreolharam, as mulheres se benzeram uma, duas, três vezes. Foi uma dificuldade sujeitar o animal e levá-lo até as cocheiras. Naquela noite, só as crianças conseguiram dormir sossegadas.
***
Foi uma semana por demais estranha na fazenda. Não se ouviam risos nas rodas do galpão, a gurizada passando longe da cocheira. Três dias e três noites se passaram e o malacara recusando forragem e até água de beber. E tudo ficou pior quando começaram a cochichar pelos cantos:
“- Quando um cavalo preteia o olho, tem parte com o demônio”.
Naquela noite, os mais velhos meneavam a cabeça, repetindo velhas estórias do finado castelhano. Diziam que ele batia os campos à frente de um grupo de homens soturnos, que dormiam dentro do mato e guardavam debaixo dos pelegos as mauser e suas longas adagas de guerra.
***
Depois de uma noite inteira se revirando na cama, Edu tomou coragem e foi até as cocheiras e viu as paredes lanhadas dos coices do malacara. Chegou bem perto, sussurrou junto às orelhas retesadas do bicho, até ele se acalmar. No campo, o ar estava pesado e o vento morno. Uma tempestade de verão estava se formando em algum lugar, além das montanhas.
Conduziu o cavalo até bem longe, alisou suas crinas, deu um tapa na tábua do pescoço e soltou o freio. O malacara bufou, empinou a cola e saiu galopando até desaparecer de todo. Relâmpagos riscaram o céu escuro e andorinhas voaram em ziguezague para o abrigo das árvores.


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