Até ir assistir a um filme, imagina-se muitas coisas sobre ele. Aconteceu com Persépolis. Fu Lana ficou à mercê da mídia.
Fez uma idéia de uma História focada no comportamento da mulher, em seus hábitos de consumo e entretenimento, além das diferenças entre orientais e ocidentais. Pensava que poderia se entreter no cinema, por momentos suaves e divertidos. O que viu, entretanto, foi uma aula de história. Sem direito à pílula dourada. Ela foi fisgada pelo olhar penetrante da criança curiosa e energética, ao presenciar cenas e histórias impróprias para qualquer idade. E o desenho não perdoa. É punk.
Foi acusado, é lógico, de ser antiiraniano e pertencente ao discurso da islamofobia. Críticas que procedem no que diz respeito a quem está no poder. Em relação à população, no entanto, o efeito da recepção é exatamente o contrário. Sentimos solidariedade com quem derrubou um ditador acreditando em dias mais felizes. O comunismo, tal como conhecemos atualmente, não seria toda a facilidade sobre a qual falava o tio da menina Satrapi, antes de ser assassinado. No entanto, foi uma fantasia que o mundo compartilhou. Era uma época de esperanças.
O Irã, como tantos outros povos, não soube se livrar de todos os subseqüentes ditadores, originados de conchavos em relações internas de poder. 99,9% escolheu os fundamentalistas depois da monarquia. Isso significa que o voto é uma armadilha poderosa.
Hoje, às vésperas de uma eleição popular no Brasil, perguntamos: saberiam eles o que estavam fazendo? Alguém já perguntara o mesmo, antes de ter sido crucificado. Afinal, todos queriam uma vida melhor, e a liberdade pode ter muitas interpretações. O mínimo lhes foi retirado: andar de mãos dadas, beber e ir a festas, ouvir a música infiel sem represálias, até usar maquiagem. Tudo poderia ser uma simples opção, se não tivesse virado crime. E sob ponto de vista de um adolescente, tais limites são inconcebíveis. Homens e mulheres de todas as idades foram e são vítimas de uma repressão física e moral.
O desenho ajuda a entender que o povo iraniano não é necessariamente igual aos malucos que estão no poder. Estamos vivendo em nova guerra fria, um embate de informações entre fronteiras fechadas. A violência é macro e dirigida por um grupo de pessoas que movem peças em um imenso tabuleiro. No entanto, a tradução dos fatos sempre vem em pequenas doses.
Em Persépolis, a vida de Satrapi estimula o respeito pela dor e pela verdade, mesmo sendo necessário colocar a repressão na tela ou apresentar os erros da pequena Marjane. O uso intenso dramático do preto e branco, em um traçado gráfico que remete à estética japonesa, proporciona uma forma poética final nada piegas.
Persépolis já estava entre os favoritos antes de ser visto. E surpreendeu mesmo assim. Porque, por mais que se esforçasse, Fu Lana não poderia imaginar a que grau de realidade seria exposta. Atrasados, corram. No Irã, pode-se adquirir o DVD por dois dólares no mercado negro. Aqui, ainda está disponível ao público de uma forma pouco mais democrática. Porém, ainda não é de graça. Lições como esta deveriam ser obrigatórias.

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